“Peito aberto, sol na cara”: mapeando passagens, Dom Capaz lança o EP Terminal

O terceiro EP da banda vem num lirismo carregado e estreia nova fase


Evoco aqui a prosa das definições. É bom, por vezes, dar nome à coisa e entender esse nome em todas as suas possibilidades. Vale o mergulho.


Terminal. No porte de adjetivo, faz definir as extremidades, delimita um fim. Substantivado, descreve aquela estação de passagem dos mais variados meios de locomoção. Terminal. Dos marcos de fins e recomeços, sabemos bem. Quem é que não se reconhece nas próprias passagens pela vida? É (quase sempre) sobre os caminhos feitos e o que nos deixaram, o que formaram ou desfizeram.


Dom Capaz (MG) vem chegando nessa sexta com seu novo lançamento, o EP Terminal. A banda mineira traz quatro faixas de legítimas texturas memoriais. Destoando sobre idas e vindas das relações, do devaneio urbano e do próprio escapismo presente no cotidiano de qualquer um, Dom Capaz constrói um material à flor da pele para quem se perde fácil nos próprios pensamentos. Depois do lançamento do single “Defeito”, finalmente Terminal sai na íntegra.


A influência sonora é forte e mora em terrenos distintos. Fãs declarados de Radiohead, é possível perceber odes em momentos diferentes da produção. Conversando com Lucas Paiva, vocalista da banda, ele conta de um outro extremo muito influente para compor: Chico Buarque.


Quanto às inspirações que alimentam, a lista não para por aí, mas é uma boa noção do pano de fundo da construção de Dom Capaz. O rock alternativo do grupo consegue beijar noções variadas da música brasileira numa mistura que se complementa. A voz translúcida do músico arranha na claridade das letras, e a experiência revela um veludo sonoro de tons tristes - latência amada pela casa Cena Cerrado. O casamento é impecável e dá para perceber nos resultados.


Abra os olhos e vem: “postes, placas e sinais/ entretém à minha volta/ a cada esquina um desvio/ meu caminho não entorta”. Em “Todo dia de manhã”, segunda faixa da obra, caminhamos junto à Lucas, carregando juntos o desconforto de estar atento num estado de inquietude.


“O trajeto me conforta/ vendo a multidão/ vou ardendo pro futuro/ seu retrato ainda cubro” conversa devagarinho com “o seu riso me equilibra/ e o passo continua”, desacertando o rumo enquanto não se pára de andar. São recortes como “vou atento/ sinto tudo” valsando com “sua falta/ eu sinto muito” que versam tão simples a ponto de doer junto.


Para se ter uma linha de chegada, ou de desfecho, é preciso andar. Transitamos em pessoas, lugares, histórias de todo o tipo que vão tecendo um vasto campo de memórias. Terminal nada de braçada nesse movimento de recobrar o juízo diante do vivido e do que chega a um ponto final inevitável - o fim da rua, de um lance a dois, de um dia estranho, de uma fase desajeitada de se explicar.



Recobrar o juízo implica, muitas vezes, perdê-lo por completo, desapegar da própria noção de senso só para se permitir vagar pelas narrativas tantas que temos nas mãos. O novo EP da Dom Capaz performa aquela famosa cena-gatilho: sentar numa poltrona de viagem, olhar pela janela afora e sentir a cabeça desgarrar do tempo.


Na formação da Dom Capaz, Lucas começou a cantar inicialmente pela falta de vocalista em vista. Atualmente, a banda é composta por João Guerra na bateria, Eddie Shumway no baixo, Zé Guilherme na guitarra e Lucas Paiva na voz e guitarra.


O rock experimental à brasileira dos mineiros pode ser visitado em alguns trabalhos, como Meio de Tanta Atenção (EP/2009), Cadeira Vazia (full album/2017), Janela (EP/2020) e o single “Repetir”, de 2011.


Conversei com Lucas Paiva desse momento da banda e o artista fez um sobrevoo faixa a faixa para podermos sentir um pouco dos bastidores dessa produção. Vem ver:

Anna F: Terminal está oficialmente em cena! Com a política de distanciamento social, como rolaram as gravações? Quais os desafios que encontraram?

Lucas Paiva: Por incrível que pareça, não houve muitas mudanças pra gente, pois já estávamos acostumados a gravar à distância. Geralmente eu faço a produção sozinho mesmo. Gravo e envio pros meninos. O que mudou dessa vez foi que cada um teve que gravar sua parte na sua própria casa. Alguns tiveram que vir ao estúdio, um de cada vez, para gravar algumas partes. Hoje, como quase todo músico tem um home studio, as coisas ficaram bem mais dinâmicas.


O EP traz uma convidada especial, a paulista Fernanda Vital. Conta sobre a experiência da faixa em dueto que fizeram.

A Fernanda ter aceitado nosso convite foi um grande presente pra gente. Porque é uma cantora que eu já admirava e ouvia. Acho que ela trouxe uma coisa dela, que transformou tudo. Colocou uma leveza que a música precisava.


De música vanguardista brasileira à rock experimental, dá pra ter uma leva de diversas sensações com o som da Dom Capaz. Quais as influências declaradas de vocês?

É bem isso que você disse mesmo. Uma mistura da vanguarda brasileira com rock experimental. Mas a gente ouve muita coisa. Eu vou de Chico Buarque a Radiohead, o Eddie vai de Roberto Carlos a Ramones, o Zé vai de Robert Johnson a Strokes e o João de Muse a Dream Teather (sim, você leu Dream Teather!).


De onde veio o nome da Dom Capaz?

O nome veio de uma das primeiras músicas que fiz pra banda. Ela contava a história de um cara que se chamava Dom Capaz. Um amigo da época gostou do nome e me encorajou a usá-lo para batizar a banda.


E as novidades de gaveta? Já podemos esperar mais planos e atividades da banda?

Opa! Tem muita coisa pra sair desse EP ainda. Vai ter clipe, músicas extras... E também estamos preparando o próximo lançamento. Já adianto que tem até coisa pronta!


A assinatura das suas composições carrega um traço legítimo sobre intimidades e relações. Conta mais dos bastidores e da natureza das faixas: “Quente”, “Defeito”, “Todo dia de manhã” e “Passagem”. Fica à vontade.

“Quente” nasceu nos 45 do segundo tempo. O EP já tava pronto, com quatro músicas. Faltando duas semanas pro lançamento, comecei essa composição, que acabou saindo muito rápido. Comecei a fazer e foi de uma vez: quando vi já estava gravada e mixada. Então substituímos uma música do EP com a qual eu não estava muito satisfeito (ainda iremos lança-la em uma próxima ocasião). “Quente” fala sobre como já se prevê tudo que vai acontecer num relacionamento e mesmo assim se comete os mesmos erros. No desfecho, o eu lírico escolhe viver só.

“Defeito” é uma música que tá guardada há cerca de quatro anos. Achei que já fosse hora dela ganhar vida. Ela vem com uma pegada disco dos anos 80 e fala sobre aquela sensação de nunca estar completo. De como a gente tá sempre fazendo alguma coisa e mesmo assim algo falta.

“Todo Dia de Manhã” é uma música que eu tinha começado a fazer há mais ou menos dois anos, mas nunca havia terminado. Resolvi pegar para continuar, mudei muitas coisas, criei partes novas e deu nisso aí! Ela fala sobre a boa e velha rotina, dos mesmos discos que a gente ouve, o mesmo caminho que fazemos todo dia e, como não poderia faltar, da saudade que sentimos da morena (risos).

“Passagem” é sobre um clássico término de relacionamento. É um pra cada lado, a saudade na mala, as boas lembranças na memória e vida que segue!


“Todo dia de manhã” tem uma natureza sonora que faz lembrar a toada de Longe, seu álbum solo de 2015, um trabalho de composições realmente latentes. Qual a importância para você desse projeto autoral? Tem planos de encarar mais projetos solo?

Muito obrigado por falar desse disco! O “Longe” foi onde tudo começou. Foi o primeiro álbum que produzi, gravei, mixei e masterizei todo sozinho. Aprendi muito nesse processo, mesmo não sendo um trabalho muito conhecido e pouco divulgado, tenho uma ligação pessoal e um carinho muito grande com o “Longe”.

Tenho vários planos de discos solos, não sei se vou usar meu nome ou se vou criar um projeto novo, mas já tenho muita coisa gravada aqui e já estou selecionando pra começar a pensar num lançamento.



OUÇA AGORA "TERMINAL", O NOVO EP DA DOM CAPAZ: