#TáNoAr: Vida Seca (GO) ecoa os sons do mundo com o lançamento de Upan

De música cubana a trilhas de videogame, novo álbum da banda homenageia ritmos culturais/globais



No baque surdo do cotidiano quarentenístico, a brecha de barulho novo segue se escancarando e surgindo. A arte de fazer música é teimosa… Olha ela dando seus pulos outra vez, olha ela!


O grupo Vida Seca lançou pelo Cena Cerrado mais um álbum na íntegra no último dia 4 de fevereiro. A banda de Goiânia mostrou pro que veio com sua batucada no Upan, o seu mais novo disco com dez faixas repletas de experimentação e truques estéticos.


Upan já sugere em seu nome a composição de misturas possível de encontrar nas músicas produzidas pelos goianienses. Referenciando pan, palavra que ilustra o conceito do todo, da completude do mundo, Vida Seca cria o personagem Upan para a representação estética da narrativa sonora que elaboraram.


No universo da obra, Upan é um ser que simbolizaria uma cultura musical universal, ecoando da raíz de vários cantos. Para toda obra, a figura de um herói. A capa apresenta o personagem num arranjo visual psicodélico do artista Danilo Itty.



Vida Seca, por Renato Vital.

Depois dos lançamentos de Som de Sucata, de 2009, e Rua 57, Nº 60, de 2015, o novo trabalho do grupo flerta com a perspectiva de diferentes musicalidades globais agindo num mesmo ponto de encontro. Regado a diversos recursos e instrumentos percussivos e de sopro, Upan foi entendido enquanto ideia de criação antes da pandemia, mas acabou sendo produzido durante esses tenebrosos tempos.


Inclusive, a faixa “Isola” faz ponte direta com o capítulo desse surto coletivo que temos vivido desde março de 2020. O ladrilhofone marca presença na música assim como a licença para trocadilhos: “isola” faz citação de um costume supersticioso que temos ao bater na madeira três vezes, de modo a afastar algum mau agouro. Hábitos de interior virando nome, virando som. Isola!


Confira o clipe de "Tudo Câimbra":

Sabia que rolou um laboratório na feitura de alguns instrumentos? Em Tudo Câimbra, faixa que abre o álbum, por exemplo, a composição de tubos para o sopro foi feita a partir de materiais reutilizados. A música já tem até clipe, lançado em dezembro de 2020. John Barrymore faz uma aparição em vídeo com montagens selecionadas de "Dr. Jekyll and Mr. Hyde", adaptação de uma peça gótica filmada em longa metragem em 1920.


O roteiro da novela elabora questões sobre o bem e o mal, assim como as tantas possíveis variações de temperatura da personalidade humana. A ideia do clipe passa pela inevitabilidade das transformações dolorosas que passamos pela vida. Além de Tudo Câimbra, lançaram também clipe de uma segunda faixa, a reflexão diaspórica de “Banzo”. Ligado a um sentido de retomada de identidade e a história negra no Brasil, o clipe teve estreia em janeiro de 2021 e já foi contemplado com o prêmio Funarte RespirArte.


Confira o clipe de "Banzo":

Entre um ritmo que contempla sussurros tribais e vibrações tecnológicas, Upan surge de um mergulho em um mar de referências e ritmos. E não é incomum a utilização de instrumentos alterados ou construídos pelo grupo para atingir o efeito.


O som do Vida Seca vem como uma viagem em construção, com a interferência de captações de objetos mundanos e o timbre de batucadas de origens distintas. A contemplação do todo, Upan, é mesmo certeira: difícil é não se deixar levar.


Não deixe de conferir o material que saiu direto da Cena Cerrado Goiás para todas as plataformas. Desfrute à vontade e fique ligado no batuque do Vida Seca!