Ê, saudade! Urutau (MG) apresenta o single “Oração”

Banda mineira prepara o caminho para a chegada do álbum “Donizete”



Quem é Donizete? Perambulei entre algumas teorias a partir da questão inevitável.

Donizete nasceu das memórias de uma Uberlândia que não existe mais, repousando lá atrás, nos anos 90 da cidade. Os casos de Arthur Rodrigues (Cachalote Fuzz) sobre crescer e ser formado pelas impressões do bairro Tibery, com todas as suas texturas e personagens, acabou por alimentar o que viria a ser a emblemática figura de Donizete.


Nos casos, descubro ao ouvir Arthur e alguns tantos que Uberlândia era diferente. A cidade acontecia através do seu tecido de encontros com uma força dinâmica dos afetos. Existe uma latência no que diz respeito à lembranças de formação, do desenvolvimento de uma cidade a pleno vapor ao desenrolar estrutural de um sujeito com tudo o que ele vai vir a ser.

Donizete, nessas memórias, era um transeunte das ruas de Uberlândia que batia perna todo tanto nos custos e desejos da arte. Por vezes, eu o enxergo como um violeiro, com as unhas de uma das mãos deixando para crescer e o olhar sempre recolhendo a inspiração dos sentimentos dos seus dias.


Consigo vê-lo descer e subir as vias da cidade mineira numa época analógica, padecendo do cansaço no trabalho de base para renascer nas cantorias na noite, na porta de vizinhos, no boteco que nunca fecha, numa praça qualquer que esteja ali para ser ocupada com música e casos de interior.


No final das contas, Donizete é um trem descarrilhado das emoções que carregamos quando vamos nos dando conta de nós mesmos com maior honestidade. Aquela sensação vívida de que as boas histórias ganham um tom a mais exatamente pela ciência das quedas que tivemos tantas vezes antes.


Para ficar de pé é preciso chão. Donizete, penso comigo mesma, é o sol forte do cerrado e a busca pela sombra; sujeito-gesto que acaba por descrever nossas passagens entre uma fase e outra. Um tanto de amor, ilusão e dose, e então mais um tanto de esperança por se redimir consigo mesmo, com suas falhas, seus tropeços.


Acabou de sair pro mundo um encontro de vozes que chamamos de “Oração”, do projeto experimental e quente que vem sendo Urutau. O single adianta um pouco do que vai poder ser vivido em Donizete, álbum que deve sair ainda neste semestre. A faixa transborda um baião a la eletrônico com todo o balanço que a narrativa pede: a alcunha das linhas do nosso personagem, num dia qualquer pela vida.


“Um sentimento que bate em forma de oração” ao falar sobre saudade é uma linha que me pegou algumas vezes. Aqui mora uma ideia muito simples, versando que isso de sentir falta (do que for) tem algo de espiritual, de um abstrato forte que se faz, pela sua força, desesperadamente sólido. A presença da saudade que se porta como um apelo divino simplifica as dificuldades em se entender neste lugar da ausência, em nos sentir sozinhos entre muitos que percorrem a falta de algo. Saudade que é oração, olha só, um sentimento intertextual do real cotidiano com o sagrado sensorial.


Ao pensar no lado imagético do single, me percorreu o desejo natural pelo acervo de quem nos antecede. Nossos pais, avós e todos aqueles que vieram atravessando os anos até aqui, abrindo o caminho para que tivéssemos ideia de que ele existe.


Meu avô, Eduardo, já foi de tudo nessa vida e por muitos anos trabalhou com mecânica para alimentar os filhos. Lembrava das fotos da Catarina, o venerado Opala que ele cuidava com um esmero de reputação. Mirando em Catarina, encontrei-o em outros cantos de registros: com amigos tantos, levantando o copo, em cantorias, brincando com os filhos, conhecendo os netos pela primeira vez, manejando a primeira filmadora Panasonic que teve, entrando para a primeira turma de Direito da UFU enquanto ia e voltava na estrada para atender às aulas.

A foto de um intervalo das suas atividades de mecânico, encostado no Fusca que antecedeu Catarina, com um café, um sorriso e peito aberto é a prosa que Donizete promete, o movimento do qual Donizete é feito. É sobre continuar andando, seguindo com o próprio som, junto e apesar de todas as pelejas que os dias trazem.


Um brinde ao meu Dudu, um brinde à Donizete! Sobre cair e levantar, estamos aí.



Urutau deixa com vocês o primeiro recorte desse álbum que se aproxima, virando trôpego e embriagado de amores na esquina. Donizete vem aí. Por ora, conheçam um pouco desse sujeito-gesto. Com vocês, “Oração”, com participação de Iuri Resende na voz, Lukas Carcass na guitarra e Rafael Vaz no baixo e samples.


OUÇA AGORA "ORAÇÃO" DE URUTAU:


















FICHA TÉCNICA:

Arthur Rodrigues - Voz

Anna F. - Voz

Iuri Resende - Voz

Lucas Carcass - Guitarra

Rafael Vaz - Baixo, MPC e samples

Produção, mixagem e masterização - Rafael Vaz na Casa Verde Estúdio (Uberlândia/MG)

Arte de capa - Anna F. Monteiro/ Eduardo Santos Neto

Selo - Cena Cerrado Brasil (MG)

Incentivo - Lei Aldir Blanc de Uberlândia 2020