"Me espalha pelo chão, amor": Em cena, Tagore Suassuna

Aniversariante do dia, Tagore bate um papo com o Cena e fala sobre o álbum novo



Os ventos de Pernambuco vêm soprar pelo cerrado para abrandar os corações inquietos. O artista Tagore Suassuna tem deixado rastros pelo caminho do que vai vir a ser o terceiro álbum de estúdio de sua carreira. Depois de Movido a Vapor (2014) e Pineal (2016), ficamos à espera ansiosa de Maya, que deverá ser lançado nos próximos meses. Enquanto isso, o álbum já vem sendo apresentado através dos singles que o pernambucano tem soltado no mundo. É aquela coisa, o aniversariante é que acaba nos presenteando…

“Drama” foi o pontapé. O single, feito em parceria com Dinho Almeida (Boogarins), canta a partir de um lirismo “infinito dramaticular”. O pé de Tagore nunca deixou o terreno da sonoridade lisérgica e isso a faixa demonstra bem. Numa construção de guitarras, sintetizadores e coro de vozes, “Drama” desabafa sobre assistir a ascensão da nossa própria loucura particular diante dos sentidos afetuosos desorientados.


Trechos como “tou esquecendo de me amar/ meu coração vai endurecer/ ou me entortar” embalam as filmagens independentes do clipe oficial, que também conta com a participação de Dinho. “Seu olhar tem som de amanhecer”: tem letra que a vontade é de engolir pra ser parte da deliciosa beleza da ideia que traz.


Em sequência, Tagore lançou “Tatu”, single que também já conduziu seu próprio clipe de deslumbrante potência cênica e narrativa. Aqui mora uma reverência às composições de Tom Zé, onde Tagore se inspira nas distorções semióticas do cantor baiano. Alimentada de cacofonia e batidas dançantes, o suíngue nos leva à uma festa para aliviar.

Costurada pelas entrelinhas das memórias dos encontros e aglomerações, o grito do refrão poderia representar uma frustração coletiva do momento: “ Ai, Tatu/ Tá tudo muito louco/Todo desmantelo é pouco”. Quem não tem enlouquecido em doses, convenhamos, pouca coisa entendeu. Toda forma de ruído e ruína representa, e ainda assim não basta.


Para fechar, “Olho Dela”. O single foi lançado em março e tem uma capacidade alta de grude inconsciente. Segundo diz a lenda, tem velada uma homenagem sonora à obra de Jorge Ben. A levada psicodélica persiste e se enamora da intimidade em letra, voz e toada que o artista pernambucano traz na composição. Aliás, é quase uma assinatura possível de se rastrear: o embalado traço psicodélico da música de Tagore funciona num sistema de intimidades. É alguma coisa que os ouvidos levam à pele - e ela reage.

E não se limita a uma resposta a trechos como “me finca as unhas na pele seca/ me tira da gaveta/ me espalha pelo chão”. Tem a ver com o conjunto do timbre, da assinatura melódica coreografada nos sentidos de quem ouve com os pedaços da honestidade de um artista em sua vivência e observação de mundo em trechos como “aceito que o homem não dá conta de sua solidão”. O single conta com as participações dos guitarristas Benke Ferraz (Boogarins) e Arthur Soares (The Raulis).


Para a construção de Maya, Tagore tem se privilegiado do trabalho direto de Pupillo, Oliveira, ex-integrante da (sempre tão) necessária Nação Zumbi. O baterista e produtor musical tem se destacado em diversas produções atuais do país, o que só atiça a curiosidade do que vai proporcionar junto ao músico pernambucano em seu novo disco.


Maya já é uma espera que tem valido a pena. Ficamos no aguardo enquanto curtimos os singles. Vida longa à Tagore! A festa no cerrado fica pra daqui a pouco (#ficaemcasa).


Batemos um papo com o músico e a entrevista você pode conferir agora:


Anna F.: Como começou na música?

Tagore: Hoje em dia eu considero que entrei na música com 10 anos de idade quando escutei um ao vivo do Nirvana, em um k7 antigo e aparentemente quebrado, que restaurei com uma caneta. Dali pra frente não teve mais jeito, eu precisava fazer o que faço.


Quais suas referências na hora de escrever uma letra ou um som?

Minha forma de compor é bem involuntária. As ideias vem e eu só vou tentando dar a forma mais interessante, raramente acontece de outra maneira. As referências são muitas, mas as principais são Beatles e Nirvana pra sempre. As infinitas possibilidades do criar e seu deleite me fortalecem e estimulam a fazer cada vez mais, além da troca com as almas que absorvem essas obras.


Hoje em dia, que tanta coisa foi ressignificada pelos tempos caóticos e um novo formato de vida, como tem sido trabalhar com arte?

Tem sido mais “frio” na minha opinião… Tá fazendo falta demais o palco. É uma gangorra tão complementar o estúdio e as tours, que remodelar essa lógica em tão pouco tempo é difícil. Mas sigamos torcendo e fazendo o possível por uma melhora no quadro.

Foto por Bruna Valença / divulgação

“Tatu” foi lançada há pouco tempo e veio carregada de nostalgia na letra. O que tem por trás dela? O que a inspirou?

No fim das contas é uma canção apaixonada. Foi composta assim, como um jorro juvenil de saudade, intenso, e anos depois, quando gravada e lançada, ganhou outra conotação com a questão da ruptura da “normalidade” após a chegada da pandemia. Gravamos ela em SP, juntamente com o restante do disco, que tá cheio de participações lindas: tem o Benke e Dinho dos Boogarins, Arthur Dossa que toca conosco e também com os Raulis, tem o Sebastian da Francisco El Hombre, e ninguém mais ninguém menos que o Pupillo, produzindo e tocando batera, daí ‘cê tira a pedrada...


Por último, bem fresca, temos “Olho Dela”. O que provocou a criação desse single?

Eu havia escrito um mini poema em 2016 durante esse mesmo período de separação em que compus Tatu e várias outras no disco. Daí tempos depois conheci uma pessoa que me inspirou muito, e dessa energia surgiu uma linda amizade e esse hit ensolarado.


Qual a melhor forma do artista andar junto do seu tempo?

Atenção e autocrítica.


Movido a Vapor chegou com muitas referências regionais e da música brasileira, e logo após veio Pineal com uma estética neopsicodélica. O que podemos esperar do novo disco?

O Maya chega com um universo que transita pelos dois espectros diferentes, tanto o mais pulsante e “regional” quanto o etéreo. Eu diria que é um disco que sintetizou perfeitamente o que viemos fazendo nesses últimos dez anos.


Esse espaço é seu, Tagore. Deixa um alô pra alguém, um desaforo, uma indicação, um desabafo, um afago.

Tá todo mundo exausto do que tá rolando, vamos ser gentis e compreensivos com quem tá do lado. Vamos ajudar quem tá precisando com o que se pode, vamos nos cobrar um pouco menos. E se for assistir algo, assista Reply 1988. Coréia, olimpíadas, lamen, walkman e muito sentimento, um prato cheio pra quem é saudoso analógico. Prrrrrrrrr