Aviso aos navegantes: Joe Silhueta (DF) lança novo trabalho, ‘’Sobre saltos y outras quedas”
- Anna F. Monteiro

- 1 de jul. de 2022
- 5 min de leitura
Com a participação de Dinho Almeida (Boogarins), o segundo álbum do grupo transborda em referências e cantos temáticos

“Enquanto a gente espera que o medo nos solte
o sol vem com força e quer amanhecer
O vento está dizendo ‘esteja atento e forte’
Amanhã será o que não pode ser”
Ser músico nesse país. Ser letrista e compositor nesse país. Ser artista independente nesse país. Ser a liberdade da palavra em canto alucinado. São tantos os caminhos para tornar possível percorrer um por inteiro. A música independente no Brasil guarda tesouros que precisam - merecem - alcançar toda pessoa que queira ouvir e conhecer.
É neste final de junho que o presente chegou, entrando pela porta aberta que deixamos para recebê-lo com graça e desejo.

O grupo Joe Silhueta (DF) lançou seu segundo disco “Sobre saltos y outras quedas” no dia 30 de junho pela Cena Cerrado Brasil. Se você estava esperando por uma viagem cativa, cravejada das mais diversas gemas musicais brasileiras em inspirações, tons e temas, não há nada entre o seu dedo e o clique do play. A poesia em estado puro te espera para navegar a sós.
A banda brasiliense já tem a sua trajetória de merecidos feitos e presença nas mais diversas casas de shows e festivais. O disco “Sobre saltos y outras quedas” é o quarto registro de estúdio do grupo, sendo o segundo álbum lançado depois do aclamado “Trilhas do Sol”, de 2018.

Este novo momento é aventuroso e repleto de fome em experimentar. É sobre saltar e é sobre cair - inevitavelmente ou voluntariamente. Dos becos sem saída ou fendas que abrimos com as próprias mãos para se ter um outro lado, sabemos bem.
Com gravação independente do final de 2019 ao início de 2020 nos estúdios Zero Neutro, Casacájá, Cobra Criada e Delima Cruz, o novo disco guarda em sua síntese uma potência estética avassaladora. Quem já conhece o grupo não escapa da surpresa pela inovação e frescor das novas composições. Para quem não conhece, o trabalho é mais que um gesto de boas-vindas. Seja conhecido aos sentidos ou não, a mensagem é certeira ao apresentar uma obra de estrondosa poesia.
No decorrer de 11 faixas, o álbum revela uma banda completa de si, vigorosa, que canta, toca e reúne em versos uma psicodelia sensível às nossas loucuras reais. Psicodelia, inclusive, que continua presente e forte na construção musical e lírica do grupo, mas em momento nenhum desacompanhada. Com ela - e nela - também se faz notar uma sensibilidade louca diante da vida, uma brasilidade incessante e impossível de se definir senão com ela mesma. Com a psicodelia, o amor e o desejo, a indignação e o cansaço, a desilusão e o desassossego, a reflexão e a pausa.
“Hoje é seu dia
Não faça nada que não queira fazer
Deixe pra depois o que pode ser feito amanhã
Tire o tempo que precisar pois hoje você não deve nada à ninguém
Hoje é seu dia e você sabe bem
que a gente tem que se dar uma folga”
(Hoje é seu dia)
“Quanto mais te quero/ mais te canto” e “O amor quando fia teia/ nenhum grilo arrebenta” cantados sem rodeios no embalo de “Essa Aranha” se revezam, sem disputa de espaço, com trechos como “bem que você tentou mas o sono não veio/ e dessa vez não foi porque você pensou na vida e suas feridas/ tampouco o vazio que te faz pensar às vezes quem eu sou”.
Dengo e confusão se cruzam, se perdendo juntos. Bloqueio existencial, desilusão e carinhos desejados se trombam, assim como em qualquer domingo à noite, qualquer cair da madrugada em dias úteis. É tudo isso existindo junto, é “tudo o que vivemos em busca de ser”.

Difícil não ser tocado pelas emoções expostas a cada faixa ou pelos vocais atordoantes e conversados de Gaivota Naves e Cobelo. Desafio não ser embalado pela rica vida sonora que habita o projeto da Joe Silhueta, e o álbum vem para reforçar essa sensação. É de dar um sobressalto real: encontro sentimentos que não conseguia definir de antemão ou reconhecer em meio às composições.
“Aviso aos navegantes: há uma terra à vista
onde se esconde o futuro da gente que vive sem
(...)
Quem não se esquece bem sabe de tudo o que você fez
Quando espalhou pesadelos com peste, míssil, fuzis
Sob o disfarce das lendas, acumulando segredos
Por trás da máscara a ovelha tem olhos bem mais hostis
(....)
Aviso a quem nesta terra se acha um homem de bem
É tão pesada essa nuvem pairando sobre vocês
Envenenado em meio aos esqueletos do ofício
Delira à beira da farsa por não ser mais sua vez.”
(Tropicalipse)
Sobre ritmos e referências tantas, não há decepção. A feira é farta: do baião customizado às baladas lisérgicas, do rock setentista às valsas desconstruídas ao batuque, da música popular brasileira ao movimento de música psicodélica popular do Brasil. “Naco de Nuca” insinua-se para a MPB querendo flertar com os timbres enfeitiçados de “Cidade Palavra” - disparos e trocas durante todo o percurso.
O disco vira uma aula sensorial sobre saltar e cair e se esbanjar nas possibilidades do criar. Além disso, o trabalho também celebra a arte do encontro, trazendo para a faixa “Assoviata” a participação pra lá de especial de Dinho Almeida, da cultuada Boogarins.
Com produção assinada por Gustavo Halfeld e Jota Dale, “Sobre saltos y outras quedas” é brisa fresca em dia quente e copo d’água pra boca seca. Facilmente um trabalho de deliciosa degustação, Joe Silhueta acaba por imprimir em quem vai terminando a escuta a vontade de ouvir de novo. Ser levado de novo. Sentir de novo.
“Era uma agonia, coisa que caía/ Nau da melodia, vivo a naufragar”. Valsa desvairada e à flor da pele com gesto do sonhar, o eco de “Era uma trombeta” (pessoalmente talvez uma pretendente à favorita pelo canto em que tocou) segue comigo muito depois de ter acabado a faixa, o álbum, a escuta num todo. Deixo o disco rolar mais uma vez e, maravilhosa cativa, é como rever alguém muito querido e abraçar desaforadamente, enquanto se cai junto nas prosas necessárias e belezas ferozes da vida.
Conheça agora o novo trabalho da Joe Silhueta, “Sobre saltos y outras quedas”.
OUÇA AGORA EM TODAS AS PLATAFORMAS DIGITAIS:
FICHA TÉCNICA
Banda gravada ao vivo no estúdio Zero Neutro
O restante foi gravado nos estúdios Zero Neutro, Casacájá e Delima Cruz Studio
Produção Executiva: Tâmara Habka
Produção musical: Gustavo Halfeld e Jota Dale
Direção musical: Marcelo Moura
Engenheiro de som: Dan Felix
Assistentes: Marcel Papa e Pedro Alex
Mixagem: Gustavo Halfeld e Jota Dale
Masterização: Bruno Giorgi
Vozes: Guilherme Cobelo, Gaivota Naves, Carlos Beleza, Marcelo Moura e Fernando Almeida Filho ("Dinho")
Violões de aço e nylon: Guilherme Cobelo
Baixo: Marcelo Moura
Guitarras de 6 e 12 cordas: Carlos Beleza
Teclados: Tarso Jones
Clarineta e clarone: Sombrio da Silva
Synths: Sombrio da Silva, Guilherme Cobelo e Ramiro Galas
Bateria: Márlon Tugdual
Percussão: Mariano Tonniati, Thiago de Lima Cruz e Victor Valentim
Beat: Ramiro Galas
Sax Tenor: João Oswald ("Chico")
Sax Alto: Pedro Paulo de Medeiros Castro Reis
Trombone: Liliane Aparecido dos Santos ("Lili")
Trompete: Maxell Costa Barbosa
Arte: Alexandre Lindenberg (Estúdio Margem)

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