Corre, meu bem: A inebriante performance de Iuri Resende em disco rasgado de sinceridade


Artista mineiro estreia trabalho solo e explora intimidades


É difícil ser honesto.

Nos perdemos e iludimos facilmente dentre os entremeios de distrações e noções romantizadas do que está ao nosso redor - e por dentro. Encarar e reconhecer o que nos habita é só um lado da moeda, daí tem a coisa toda da beleza e maldita condição da expressão: o tal de encontrar meios de (se) mostrar. Morar num livro aberto da sua própria história pede abraçar a confusão, a incerteza, o desapego e a página em branco.


Do campo de honestidades extasiadas, o lançamento da vez. Iuri Resende (MG) estreia seu álbum Wyborowa Malagueta, primeiro trabalho solo do artista. A potência autoral do material revela os bastidores dos bastidores das experiências: de relações passadas e o que deixaram à divagação pela completude contraditória da vida, da companhia de um copo de bebida ao descontentamento dos dias. O artista está presente e quer falar.


Iuri já vem trabalhando com música há algum tempo nos mais diversos projetos e tipos de momentos autorais, em bandas como Surreal, Black Jack 21 Blues Band e Cachalote Fuzz. Persona solta nos palcos, o que Iuri traz para seu novo trabalho é algo que quem o acompanha não havia visto antes com tanta clareza: a habilidade de falar do que é frágil, do que faz falta, do que move seus pensamentos e afeta suas emoções particulares.


Poucas coisas são mais envolventes na arte do que quando podemos ver o artista na sua camada mais humana, mais próxima das nossas próprias desorientações e falta de rumo pro que sentimos e guardamos. É o diálogo sem interlocução direta, sendo capaz de criar uma atmosfera em que, sem conhecer aquele corpo producente, nos identificamos com ele, nos sentimos vistos, também, por ele.


Wyborowa Malagueta foi inteiramente produzido por Iuri Resende, que usou do próprio quarto para as gravações. Cru, direto e honesto, como descreve o próprio músico. Desnudo de maquiagens sonoras, somos convidados a adentrar seu mundo particular através do timbre ecoando no cômodo, do uso das coxas como instrumento (na faixa “Ressaca de você e do seu acho que deve rolar”), das intervenções de ruídos não planejados - um carro distante, um vento que sopra mais forte, um ensaio de risada rouca do cantor que quase escapa para fora da boca.


O aspecto da presença desplugada que canta, ruge alto, flerta com as cordas do violão da forma que bem quer, fica rouco e continua em cena traz uma possibilidade de alcance ainda mais delineada para quem o ouve. Como se, talvez, o álbum fosse a porta do quarto do músico, uma porta que podemos abrir para ir e voltar faixa a faixa. Nos tornamos, enquanto público ouvinte, o ouvido na parede que recebe a vibração provocada pelas músicas. De certa maneira, a linha crua de narrativa sonora proposta por Iuri nos faz presentes também, numa ambientação que transita entre a que estamos e a que ouvimos.


Repleto de saudades e o inevitável dedo na ferida das ausências, Wyborowa provoca as memórias particulares de quem ouve, mesmo que não tenha diretamente nada do cenário cantado.


Trechos como em Planeta Pity: “eu tive um amor tão bom/ ela me dava a mão/ a gente acalmava um ao outro às 5 da manhã/ ou talvez um pouco mais tarde” carrega em si algo muito comum a todos nós, aquela gaveta entupida até o talo com as histórias de alguém. “A gente fazia amor de verdade/ depois de passar a noite/ cantando num karaokê qualquer”, e tendo sido fã ou não das noites de cantoria pública em microfone aberto com algum Roxette ou Titãs, fica difícil não reconhecer a sensação de casa que vivemos com uma pessoa. Aquele conforto tão completo que desconhecemos a timidez ou o constrangimento.


Classificado pelo próprio artista como folk funk romântico, Wyborowa Malagueta tem sua autenticidade intacta, bebendo de todas as referências que são caras ao músico. Não há preocupação em seguir uma coisa só - aqui nos deparamos com uma pegada que homenageia timbres psicodélicos, com uma aura de moda de viola e até cantarolados seguidos por percussão no próprio corpo. Síntese de uma receita autoral: o desapego à qualquer fórmula, cotovelo pra doer e pés dispostos para dar voltas na própria cabeça, rastreando o que as histórias deixaram no que somos, no que carregamos enquanto impressão da vida e das coisas.


Quando pergunto a Iuri o porquê do nome, o artista responde que vem do doce caótico da vodka Wyborowa com o ardido necessário da pimenta malagueta, e que isso dialoga com suas composições. Ambas provocadoras de noção de temperaturas possíveis de se sentir, o nome não poderia ter se encaixado melhor. Wyborowa é pensar a vida em voz alta e à flor da pele.



Bati um papo com Iuri Resende sobre seus processos criativos, a estreia solo e a saudade de uma noite de karaokê. Vem ver:



Anna F.: Boatos de que a primeira coisa que aprendeu a tocar foi viola caipira. É isso mesmo? Como se entrosou nos primeiros passos aprendendo sobre instrumentos e uso da voz?


Iuri: Na verdade eu menti, a viola veio depois do violão. Tudo por volta dos 8, 12 anos. Sobre aulas musicais eu tenho uma história boa! Fui fazer uma aula de canto em Brasília, com uns 15 anos. Na primeira aula, o professor me falou que eu tinha um grande calo nas cordas vocais e que perderia em pouco tempo o poder do canto, aí fui embora e nunca mais voltei, mas canto até hoje.. Mesmo sendo rouco, é um charme.


Você já passou por algumas bandas e trabalhos interessantes. Quais os projetos que fez parte que mais te marcaram?


Todas me marcaram em fases diferentes da vida, mas a famosa Surreal é a mais marcante porque foi o começo de tudo. Gravações, viagens pra shows, experiências lisérgicas e um descontrole confortante. Cansei de usar batas brancas, cabelos longos e acabei com a banda, mas foi tudo lindo, quase tudo.



Wyborowa Malagueta é seu primeiro disco solo e veio carregado de subjetividades, tanto na forma como é gravada quanto no que canta. Como se ambienta na hora de compor uma letra? Tem algum método particular que o induz quando cria?


Bom, até hoje essa é a boa pergunta! Nunca me lembro de ter feito nenhuma canção, dá até medo e pensei muito nisso recentemente com o Wyborowa. Ainda acho que não fui eu que fiz as músicas, principalmente o instrumental delas. Mas como ninguém participou do disco então fui eu mesmo. Sempre componho a letra e melodia antes de tudo (nas minhas caminhadas no fim da tarde), e depois tento achar as notas em algum instrumento, ou deixo sem nenhum instrumento também, como na "Ressaca de você e do seu acho que deve rolar".


O Wyborowa trouxe na sua própria base algo que estamos vendo muito na quarentena, que é a produção caseira. Como foram os bastidores da produção do material?


Não era a ideia de gravar um disco inicialmente. Gravei várias músicas nesse período de pandemia, aí um dia lá na roça eu parei para ouvir as gravações e percebi que algumas das tantas canções fechava um conceito, que é o folk funk romântico! Daí nasceu o Wyborowa Malagueta. Todo gravado em casa, "desplugado e contra o vento" - frase de Anna Monteiro.



Já podemos esperar mais dos seus trabalhos autorais no horizonte?

Não, não, esperar alguma coisa de alguém é sempre frustrante, nem eu espero. Mas, ao mesmo tempo, já tô doido para entrar em estúdio e gravar o terceiro disco da Cachalote Fuzz. Tenho várias músicas novas pra banda e vamo que vamo deixando fluir essa loucura toda!


“Planeta Pity” traz no nome um bar de karaokê de Uberlândia. Conta pra gente as três músicas que você não fica sem cantar quando vai pro karaokê.


ESSA FOI BOA! Eu chego lá no Planeta Pity e a dona de lá me vê e já fala “ó o cantor”! E me passa na frente na fila (atitude suspeita). Começo sempre com meu bom e velho Bee Gees, depois um Rionegro e Solimões e fechando com “Feelings”, porque depois de três músicas eu já tenho que voltar pra mesa, fazer o que eu gosto. Um abraço a todos amantes de karaokê, sinuca e jukebox de todo Brasil!


Esse espaço é seu, Iuri. Deixa um desabafo, um beijo pra sua mãe, uma indicação boa, um álbum que não fica sem ouvir. A casa é sua.


Queria fechar aqui então com uma provocação. A vida é um limão espremido, você só consegue se cortar. E um plágio do Rubem Alves também que fala, "ostra feliz não faz pérola". Se você estiver confortável, levanta desse sofá porque ‘tá tudo errado. Agradecer minha família e a todos amigos que me acompanham. Ouça o disco de peito aberto; é cru, seco, e o principal, honesto! E, ah, ouçam Boy Pablo.


OUÇA AGORA O DISCO WYBOROWA MALAGUETA,

LANÇAMENTO OFICIAL CENA CERRADO BRASIL: