Fernanda Vital (MG) embarca em novo lançamento com Deepleaks (SP)

“Frenética, cíclica”: O single "Love and Caos" já está com clipe em produção e tempera sensações


Amor. Amor e caos. Salvo a posição de cada letra e fonema, os significados se misturam na experiência da pele. Quase vira uma questão de temperatura e momento.


Nessa travessia de sensações, basta estar vivo e aberto para entender que estamos expostos e sujeitos às nossas desordens e afetos particulares. Gente da gente é assim: pele, osso e bagunça (quase sempre) bonita.


Na última semana de um abril recém-encerrado, Fernanda Vital lançou seu mais novo trabalho, o single “Love and caos”. Quem assina a produção e mixagem é o Deep Leaks, estúdio dos paulistas Juliano Parreira e Gustavo Koshikumo, que também integram o projeto ATR. Numa batida eletrônica pop, as nuances de chillwave e bolero brincam em inglês e português numa entrega lírica dançante.


A cena é doce já na primeira vez que se escuta. “Love and caos” traz uma malemolência cênica que embala o corpo e as memórias, atiçando os desejos. Não fica difícil imaginar sobre o “efeito especial” cantado pela artista, quando diz na música “tua natureza vem das copas das matas dentro do teu olho”.


A identificação sonora casa com aquele momento de encontro de olhares num lugar arrebatado de gente, quando todas as coisas ao redor passam a se movimentar numa toada lenta diante de um momento nas entrelinhas a dois. Sabemos bem, essas vias de amores, e também os inevitáveis frames caóticos, são visitas que chegam e acontecem sem aviso prévio. O inesperado nos une dentro das nossas melhores histórias.


Num suíngue pop, Vital canta do frenesi a partir de uma calmaria rítmica. Trechos como “we’ve got the power/ the power got us” desencadeiam o inevitável: o querer de um mundo maravilhoso que nos caiba e nos expanda. Sentimentos complexos e desenfreados são construídos de um jeito simples, de forma a desassustar conceitos duros em relação às afetividades, ao outro, à nossa relação com o mundo. “Love and caos” é, de muitas formas, um convite para estar presente e atento ao agora.


Em entrevista, pergunto a Fernanda Vital sobre a produção da faixa em quarentena, e ela me falou sobre o encontro de ideias com o pessoal da Deep Leaks e como foi harmonioso entender a composição como um todo. Harmonia, aliás, que versa bastante sobre a natureza do trabalho da artista, que carrega na forma de compor e criar uma preocupação em articular com sintonia temas que lhes são caros.


Seu último disco, o Mímesis, de 2019, revela muito disso: o desbravamento do universo feminino como uma grande questão aberta e diversa, a importância do olhar ambiental, a relação de sujeito e mundo, a noção de onde viemos e quem nos antecede, os afetos versus as relações, as discussões necessárias enquanto mulher e artista. Fernanda Vital pensa o corpo e a vida em suas músicas num tom convidativo e leve.


Ainda em entrevista, troco uma ideia com Fernanda sobre as mulheres que fazem parte da sua formação artística, do seu despertar criativo e sensível. Dentre os nomes que traz, a artista conta uma história de criança nos tempos de escola e se recorda do primeiro material de poesia que teve contato. Foi na biblioteca de onde estudava com um livro de Cecília Meireles catado das prateleiras.


A escritora e poeta carioca também carrega uma conduta de criação semelhante à de Vital: a simplicidade sensível de falar do difícil, do substancial. Uma poesia por si só: a ideia de simplificar o que tanto nos atravessa. Em 1939, no livro “Viagem”, Meireles escreve em Motivo que “eu canto porque o instante existe”. Sem mais. Simbólico recorte da memória do que hoje forma o chão de uma artista repleta de uma sensibilidade que dança com as ideias.


Medidas iguais para doses distintas: os desejos são parte dos nossos desarranjos. É com “Love and Caos” que embalamos os dias. E esse texto que encerra.


Fiquem em casa, se cuidem e fortaleçam a música independente!


Já falei #vemvacina hoje?


Confira agora a entrevista do Cena com a artista Fernanda Vital:


Anna F.: A gente sabe como já era trabalhoso pro artista independente se colocar em cena através dos próprios meios. Num momento como o atual, então, nem se fala. Como tem sido as produções e criações em casa na quarentena?

Fernanda Vital: Assim como toda crise, toda dificuldade, ela vem com uma possibilidade de abrir novas formas de se fazer arte. E não foi diferente, produzi muito em casa com meus equipamentos e desmistifiquei muito para mim mesma sobre a coisa toda de se fazer música, de se fazer arte. Tem sido pessoalmente a maior lição de todos os tempos em relação à arte.


Seu trabalho traz muito das linguagens possíveis e tão diversas do feminino, e isso sempre acarreta uma importância de mundo e ambiente para você. Qual a importância dessas reflexões para você enquanto artista?

O que é o feminino, né? Esse é um assunto extremamente complicado. O que eu tento fazer é honrar minhas ancestrais através dos meus pensamentos, minhas ações. Eu sou a filha única mulher de uma filha única mulher da minha vó. Tem aí uma linhagem ancestral que eu simplesmente tento honrar: tudo que eu vejo, o que eu vi e o que isso representa pra mim. Acho que há muitos mistérios nesse universo que a gente chama de feminino, de ancestral, e ele vem sempre apagado e arrancado a força por um sistema opressor. O que eu puder fazer para contribuir nesse sentido vou sempre estar disposta.


“Love and Caos” saiu com tudo no final de abril, com produção e mix do Deep Leaks. Conta um pouco sobre como construiu essa faixa nos bastidores e como foi trazê-los para a produção desse trabalho.

Falar desse single é muita satisfação porque foi uma das maiores alegrias! Porque foi convite, foi uma coisa espontânea. Eu já estava começando com isso de produzir em casa, trabalhar as vozes e tal, só que partiu da voz gravada no celular. Mandei pro Ju, da Deep Leaks, eles já me mandaram um feedback instrumental da música quase pronta. Foi muito massa! Trocamos referências antes e o resto foi pura sintonia. Muito lindo mesmo, quero fazer mais (risos).


Seu som evoca uma leveza dançante, como num gesto autoral, tipo um vento que baila com as copas das árvores. Faz sentido (rs)? Quais seriam as suas maiores influências na experimentação da sua sonoridade artística?

Faz total sentido! A música pra mim traz essa relação de dentro e de fora, esses limites, entre o que é dito e o que não é dito, a imagem que fica nas entrelinhas do som. Eu costumo sentir a música muito mais do que pensar nela. Tenho dificuldade, inclusive, para estudar música porque aí eu tenho que pensar nela, né... Gosto mais de sentir. Isso é uma dificuldade que acaba sendo uma qualidade em algum aspecto, eu acho. Músicas que me fazem sentir essas inspirações experimentais, alguma coisa de Björk e Tom Waits, que eu tenho me ligado muito, mais o som da cultura popular brasileira que por muito tempo eu fui bastante conectada, que eu gosto muito, músicas que mexem com o corpo. Então acho que é essa a função que a música pode trazer pra gente, né, e acabo levando isso muito pra mim.


Mímesis é um álbum forte e bastante lírico que não tem muito tempo que saiu pro mundo. Quais os planos no horizonte com esse material?

O Mímesis entrou bem nesse contexto de pré-pandemia. A gente tem algumas lives já com o material. Eu tô com a banda que eu adoro daqui de Uberlândia: Lukas Carcass na guitarra, Pedro Vianna no baixo e Gustavo Dias no violino. Eu quero fazer muita coisa com eles nesse projeto ainda. Lanço logo mais o vinil do Mímesis, que já tá na fábrica; só tô esperando o prazo para fazer uma live de lançamento. E logo, logo começar a produzir outras coisas. Aquela coisa, trabalhando um pouco com o Mímesis enquanto rolam outras coisas em paralelo. Tem mais dois clipes que estão para sair também, Mímesis vai acabar virando um álbum visual (risos). Para cada música vai ter uma representação de imagem, assim espero.


A mulher artista, apesar de presente em número e qualidade, ainda batalha para ter o holofote que muitos projetos liderados por homens ganham. O equilíbrio de gênero no meio musical ainda é uma discussão necessária. Como enxerga esse tema, Vital? E, aproveitando a toada, deixa para a gente o nome de três artistas mulheres que são presentes e muito importantes para a sua formação.

Acho fundamental falar disso. As mulheres ainda não têm representatividade em eventos, na música, nos festivais. E cabe a nós estarmos atentas umas às outras, é uma coisa que tem que ser trabalhada e discutida cada dia mais. Quero trabalhar com mais mulheres. No audiovisual tenho tido experiências muito bacanas.

Sobre mulheres inspiradoras e influências na minha vida: primeiro, minha mãe. Minha mãe escrevia, inclusive música. A cena dos papéis esparramados em casa, tudo rabiscado, é algo muito forte e latente na minha cabeça. Foi minha primeira ideia sobre isso. E aí, em segundo… A primeira poesia que eu li na vida foi na escola. Fui buscar um livro, eu tenho ele até hoje - eu roubei da biblioteca (risos). Não queria devolver por nada, um livro de poesia da Cecília Meireles. Eu era criança, me fez cometer esse ato terrível. E terceiro, em número de plays, quem eu dei mais play na vida, assim, cantora, acho que é Gal Costa. Ouvi e ouço muito, gosto demais da atitude enquanto cantora e da versatilidade. Mas sempre tem outras… Se puder falar de quatro, trago Nina Simone. Porque, né…


Por último, uma pergunta capciosa: amor e caos tem como sina andarem juntos?

O caos tá dentro do amor. É isso. Os dois são necessários.


O momento do “finalmente”: esse espaço é seu. Deixa pra gente um recado, uma coisa presa na garganta, uma indicação de algo bom. A casa é sua.

Bebam água, não sucumbam às pressões das mídias sociais, amem, transem. É isso.


Ouçam agora “Love and Caos”, de Fernanda Vital:


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FICHA TÉCNICA:

Composição: Fernanda Vital e Caio Lobo

Produção e mixagem: Deep Leaks (Juliano Parreira e Gustavo Koshikumo)

Masterização: Martin Scian

Arte: Graviola Comunicação & Mídia

Selo: Cena Cerrado Brasil