Ao povo o que é do povo: D-Volt lança seu novo EP, “Assunto Popular”

Rapper goiano fala de seu novo trabalho, a força das parcerias e 2022


Anda corrido - nova regra geral. A sensação é que tá todo mundo perdido no tempo-espaço e esbarrando nos dias. Essa pandemia ofuscando a ideia do futuro ali na frente, as relações de trabalho e os perrengues do sustento, a pane existencial lidando com as notícias do mundo, a realidade da fome no país, a dose extra do panorama da série Brasil 2021 e por aí vai. A lista é longa e persistente, já seguimos sabendo.


Dentre tantos pilares possíveis para um alento, fica a destreza danada da arte e do artista de ir resistindo (de algumas tantas formas), ir se reinventando para conseguir produzir e chegar até a gente, aqui do outro lado, doido para consumir vida da forma que der e vier. Na era do distanciamento, o respiro do que ainda consegue nos encontrar e estar perto. Tim-tim, vamos falar de lançamento, sim!


A sexta de hoje chegou do jeito que a gente gosta: com novidades do quintal de casa. O rapper D-Volt lançou pro mundo hoje, dia 8, seu novo EP. O Assunto Popular é a nova leva de produções do artista, que trouxe nela parcerias especiais do próprio círculo afetivo e cultural.


A riqueza do encontro reverbera, muda o caminho, é bonito isso. Só reparar toda uma quarentena de distâncias e travas pra gente entender o valor que isso tem: existir a troca de e entre vidas, poder fazer junto. D-Volt, que leva muito em conta o poder do coletivo, traz isso muito à tona no novo material.


Natural de Goiânia, o artista começou a carreira em 2002 em sua cidade natal com o grupo E.D.G. (hoje rebatizado Diretoria do Gueto, e funciona como coletivo cultural na cidade). De lá pra cá, foram dois EPs e um álbum digital, sempre com muitas parcerias e todo seu pensamento político e social explorado nas letras.



O Assunto Popular é a troca direta de ideias sobre preocupações atuais e inegociáveis. Em quatro faixas, vamos da realidade do trabalhador brasileiro à necessidade do protagonismo infanto-juvenil, da denúncia política à promoção da igualdade étnico-racial. Com a participação de Alessandra Mahin, Emi Santos e Nego Precioso, o novo EP do D-Volt é o assunto da vez que não podia ficar de fora.


Confira o papo que tive com o artista na toada de seu novo lançamento:



D-Volt, vamos começar do começo. Conta pra gente como foi quando começou seu movimento, lá em 2002 com o E.D.G. Como era a dinâmica do grupo e a cena de Goiânia?


O Rap nacional vivia um momento de grande efervescência… Racionais MC's tinha acabado de lançar o álbum "Nada Como um Dia Após o Outro", a música “Negro Drama estourada nas quebradas do Brasil. Os grupos Facção Central, Realidade Cruel, MV Bill, SNJ, Face da Morte, GOG a todo vapor.

Nesse período eu estava começando a escrever minhas letras, cantávamos com a galera do colégio e do futebol, na região leste de Goiânia.

Comecei a colar nas lojas de roupas street wear do Centrão de Goiânia; lá também tinha cd e vinil de rap, além de sempre tem flyer de divulgação de eventos e cursos.

Comecei fazer curso de DJ com o pessoal do coletivo Pérola Negra, também no centrão. Comecei também a montar o meu sistema de som "basicão" e usado. Nesse período eu era DJ e um dos MC's do Grupo EDG.



Você tem um jogo de ideias que acessa muito facilmente quem ouve seu trabalho, o que é um viés importante demais: fazer a mensagem chegar no outro. O que você trouxe de bagagem e de urgência do seu caminho para o momento que iniciou sua carreira solo? (confira a resposta também em áudio)


Busco no meu trampo deixar bem claro o que defendo, mostrando que o rap enquanto elemento da cultura hip hop e também outras expressões culturais com o punk, hadcore, samba, capoeira dentre outros são ferramentas de luta em defesa da classe trabalhadora com respeito à diversidade.

Tento passar uma mensagem direta e que seja fácil para as diversas faixas etárias e pra quem não é muito ligado a arte entender, uma parada acessível.

A carreira solo dá essa liberdade. Nos grupos pode acontecer de algumas temáticas os outros integrantes não concordarem.

Gosto muito de convidar outros artistas para participarem dos meus trampos.


O trabalhador e a juventude brasileira aparecem muito em suas músicas como base temática. São figuras com as quais conversa enquanto fala sobre elas. Como você vê a juventude atual do Brasil?


Acredito muito nas juventudes. De forma geral, os jovens não são ouvidos, "entendidos", há muito preconceito ainda. Mas os jovens a todo momento vão se "reinventando" nas batalhas, no sarau e em outros movimentos.

E o desafio para essa geração é imenso, o assédio dos conservadores é muito grande, as igrejas conservadoras "neopentecostais", os ruralistas, milicianos, eles não dormem em serviço.



“Assunto Popular” tá saindo pro mundo, seu terceiro EP, que vem chegando com firme posição política. Pra você, qual a importância do artista se posicionar na sua própria arte, além da vida pessoal? (confira resposta também em áudio)



Acho que os artistas têm um papel muito importante dentro da sociedade. Eles chegam em lugares que outras áreas não chegam, conseguem transitar bem. O que pode ser levado tanto para o lado do conhecimento crítico, criativo quanto do conservadorismo.

Eu gosto de deixar claro de qual lado estou, e caminhar na vida pessoal com coerência. Fundamental viver o que prega!

Pra mim não adianta nada subir no palco, cantar uma letra de protesto, fazer a denúncia e depois votar no genocida Bolsonaro. Infelizmente muita artista fez isso


Como rolaram as produções de “Assunto Popular”? Como chamou as parcerias nesse momento de produção?


No início da pandemia comecei a participar de diversas atividades virtuais, reuniões, rodas de conversas, sarau... Sempre trabalhando uma temática específica, o que me inspirou a compor referente a essas participações.

Resolvi convidar parceiros dessas atividades, pessoas com quem já tínha uma caminhada junto nos eventos e na luta árdua do dia a dia, tanto para a produção musical como para a participação nos vocais.


Conta pra gente das cartas na manga. Tem planos em andamento ou projetos em vista?


Ansiedade louca para lançar um álbum completo no início do próximo ano, retomar os projetos de sarau cultural, pocket shows e produzir mais folhetos de cordéis autorais.


A faixa que encerra o EP, “Falsos Profetas”, entoa a caótica realidade que temos vivido no país. “Há milicianos no poder/ Trabalhador detido, miséria só a crescer/ Libera arma e veneno/ A gente vai perecer”, comentando ainda sobre o “mito diabólico” que vemos ser venerado por uma parcela da população. A faixa encerra com um sincero e estendido “eita, vida de gado”. A quantas anda sua fé na mudança? Você tem esperanças no horizonte de transição eleitoral de 2022?


Esperança é necessário. Acredito que é possível tirar os milicianos do poder, mas será uma tarefa muito árdua.

Os partidos progressistas têm que voltar para a base, estar mais próximo da quebrada, estar mais próximo do povo do campo. A militância está muito no centro não é de hoje, enquanto isso o povo elege vermes capitalistas. A tarefa é pra ontem! 2022 está aí.


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Ficha Técnica


Composição: D-Volt

Produção de Instrumentais: Saggaz Beats e Kiko Dee

Gravação: Victor Beats, Eduardo Carli/A Casa de Vidro Ponto de Cultura e DJ Fox/Studio 100%Correria

Mixagem, masterização e efeitos sonoros: Johnathan Ramos/Estúdio Primeiro Mandamento e DJ Fox/Studio 100%Correria

Fotografia: DJ Fox

Logomarca: Ronan Marrom

Distribuição digital: Cena Cerrado Brasil