Nasce o Cena Cerrado Brasil

Saindo do forno! O selo está de cara nova e vem se apresentar em sua atual fase de atividades


2021.

Número-travessia que carrega tantos significados simbólicos do desejo por novos tempos, novas chances. Alô, alô, sobreviventes de 2020, cá estamos! Grande parte do cotidiano ainda não encoraja. Apesar do avanço da vacina (Butantan, sua linda!), ainda seguimos nas limitações da quarentena e bombardeados diariamente por atrocidades políticas e sociais de toda natureza. Felizmente, o que insiste em nos preencher com calor e vida é o movimento do meio artístico. O Cena Cerrado não ficou de fora dessa.


Seja na cidade de sua sede ou por onde tenha passado em atividade através de seus artistas, o Cena Cerrado fez história centenas de vezes com a vibrante proposta da sua existência: botar fogo e quebrar tudo através da música. Quem viveu, viu: festas, festivais, noites temáticas, eventos, rodas de conversa, shows, simpósios, na estrada, nas sessões de estúdios e mesa de bar, é só escolher.

Em 2014, o Cena Cerrado surgiu com atrações independentes nas repúblicas. (foto: Gabriela Guimarães)

O selo marcou fortemente o seu lugar no imaginário cultural do triângulo mineiro, deixando um pouco do seu frenesi e paixão pela arte por cada ponto que passou. O desejo de um movimento na cena independente do uberlandense Arthur Rodrigues veio crescendo e envolvendo tantos nomes e lugares que é impossível não vislumbrar o potencial dessa narrativa em transe.


Com o despontar da pandemia, acompanhamos o cessar de tudo o que nos aproximava por questões prioritárias de segurança. Todos os sujeitos atuantes na cena artística e cultural se depararam com o mesmo desafio. Em 2020, logo no início do distanciamento social, o toque de recolher gerou muitas discussões internas no Cena sobre as possibilidades do momento. Na política do do it yourself, reclusos em suas casas, as atividades dos artistas foram se desenrolando da forma que dava e quando dava.


Como fazer acontecer sem essa interação com a presença, com o outro? De quais maneiras usar os (quase sempre escassos) recursos para alcançar um público que não está na sua frente e ao seu redor? Como dar continuidade aos trabalhos de maneira consciente com o tempo que vivemos?


Na impossibilidade de estar perto e juntos, os murmurinhos dos bastidores do Cena Cerrado apontaram uma nova roupagem de encontro e união. Minha avó materna tinha uma dessas frases prontas e clichês que não deixava de ser uma verdade simples: quem dá as mãos esquenta melhor o corpo. É andando e fazendo acontecer junto que essa história quente de amor à música vai seguir de agora em diante.


O passarinho da palheta agora anda em bando em fresca revoada. Esse joão de barro apresenta sua nova casa: sejam bem vindos ao Cena Cerrado Brasil.


Cerrado é coração de mãe e sempre cabe mais um para caminhar debaixo desse céu policromático. Cerrado também sabe crescer e tomar espaços, fazendo avançar seu chão. O solo do Cena Cerrado expandiu e agora dá frutos em mais três pontos desse Brasil.


A partir de 2021, a produtora dá boas vindas a três representantes que chegam para somar à família com suas respectivas sedes nas cidades de Goiânia, Brasília e Ribeirão Preto. O desejo pela troca de diálogos culturais e movimento musical é antigo e compartilhado, e agora une forças para isso sob um mesmo teto.


Vem junto conhecer de perto quem chegou na casa!



MILO E O CENA CERRADO GO


O primeiro ponto de fusão se inaugura em Goiânia, com a mesclagem da Milo Recs, parceiro do selo há dois anos. Camilo Rodovalho, simplificado em Milo, está no meio da produção cultural há mais de dez anos em Goiânia. Formado em Direito desde 2017, o goiano teve a arte como matéria prima principal de trabalho nos últimos anos. Já esteve à frente de eventos como o Festival Vaca Amarela, Grito Rock, da série La Bomba Latina além de produção executiva no teatro com peças como “A Doença do Acúmulo”, de Léo Pereira em 2014, e “O Verde Alecrim”, de Hugo Rodas em 2015.


“Sempre via as divulgações e produções do Cena Cerrado. Em 2019, após o show do Diego Mascate e A Banda de Apoio que o Arthur produziu no Ovelha Negra Pub, começamos a estreitar os laços. Não só profissionalmente mas também de amizade”, compartilhou sobre o primeiro encontro com o selo e sua figura fundadora. “Desde então também produzi show da Cachalote Fuzz em Goiânia e passamos a distribuir uma série de artistas juntos, Milo Recs e Cena Cerrado”.


Milo tem andado muito bem acompanhado, trabalhando com bandas como Vida Seca e Caffeine Lullabies, de Goiás, Cachalote Fuzz, Lava Divers e Dom Capaz, de Minas. Criou e realizou a Noite Milo Recs desde 2017 e o Xangô Festival de Artes desde 2019. Há pouco tempo participou também da produção da série Mauro Rubem Talk Show e Artista Ativista para o Youtube.


A parceria com Arthur foi se estabelecendo naturalmente a partir das primeiras trocas e já gerou frutos culturais de diversas grandezas. Através da união de forças da Milo Recs e Cena Cerrado, muitas portas foram abertas - quando não criadas do zero, como a iniciativa do Festival Mutamba.


O festival aconteceu logo no início da pandemia, em 2020, e demonstrou muito do fôlego da parceria dos dois. “O Mutamba surgiu com o Circuito Cerrado, iniciativa nossa. Decidimos mostrar através de um festival como funcionaria a rede de circulação de artistas”, compartilhou Arthur sobre a ação. No formato de live, já mirando num percurso físico pós-quarentena, Milo e Cena realizaram três dias de festival com aproximadamente a participação de 30 artistas. “Tudo feito de casa por mim e pelo Milo. Uma correria danada, mas que teve um resultado pra lá de bonito”, completou o mineiro.



O ambiente virtual tem sido palco central para as atividades artísticas e culturais de Milo, que vem buscando meios de maior alcance e distribuição do material com o qual trabalha. Sobre a fusão de sua produtora com o selo mineiro, disse que torce para que seja a revitalização das perspectivas em relação ao que já vem sendo feito nas cidades do cerrado. “A ideia é que daqui pra frente as atividades aconteçam de forma mais integrada e coletivista”, aponta.


A pandemia antecipou a urgência de modelos mais resilientes de comunicação e atuação no mundo, e Milo enxerga essa potência de elasticidade funcional na fase que inicia com o selo. “Considerando que vivemos atualmente uma realidade híbrida, sabemos que a arte necessita de novos formatos para que haja a sua difusão”.


Milo agora é Cena e já chega com as chaves de casa. As boas vindas são postas à mesa àquele que já vem fazendo acontecer junto ao selo, e, sem dúvida, indica a saúde criativa da união e dos tempos que virão. “Acredito que os novos planos do Cena Cerrado contemplam de forma assertiva as necessidades de produtores e artistas”, conclui.


Segue com Milo a gestão do Cena Cerrado GO. “A expectativa é imensa”, complementa Arthur. “Começamos com o Circuito Cerrado. Daí houve a ideia da fusão com a Milo Recs e logo em seguida o projeto estava encaminhado pro que viria a ser Cena Cerrado Brasil”.

Vida longa (e barulhenta e, assim que der, bem aglomerada) ao cerrado musical!



TYNKATO E O CENA CERRADO DF


Em Brasília, o Cena Cerrado DF está nas mãos de Tynkato, que conta como conheceu e se aproximou do selo.“Eu tinha uma banda chamada Lista de Lily. Em 2017 o Arthur chamou para fazer uma mini turnê no triângulo mineiro; um dos shows era no Cachu Rock Festival. Um tempo depois, a banda acabou e criei um novo projeto chamado Cabra Guaraná, que foi selecionado para a coletânea do Cena em 2017. Depois daí foi só alegria”.


Músico frenético e produtor cultural de longa data, Tynkato começou na música ainda adolescente dentro de igreja evangélica, tendo sido expulso de algumas por ser roqueiro. Abandonou de vez o ambiente gospel aos 18 anos para seguir seu próprio estilo de vida.


Antes do Cabra Guaraná aparecer em voga como projeto principal do músico, o caminho foi repleto de voltas para se percorrer. Na altura de 2010, criou a banda Radio Favellas e deu as caras na produção musical de maneira completamente independente, com todo o trâmite sendo experimentado e feito em casa segundo a receita do DIY.


Com o fim da banda, ressurgiu com a The EgoRaptors, projeto junto a uma prima com forte influência indie e músicas somente em inglês. Chegaram a tocar em 2013 no Porão do Rock, festival de Brasília que acontece desde a década de 90. Na mesma época, juntou com outros amigos e dali veio Lista de Lily, simultaneamente com seu efervescente projeto de ocupação urbana no distrito federal, o Vai Tomar No Cover (carinhosamente intitulado VTNC, isso mesmo: tudo junto, em maiúsculo e gritado das ruas).


O VTNC proporcionou mais de 60 intervenções na ideia de criar meios de colocar um som na rua e tocar. Enquanto isso, andava com a Lista de Lily por diversos festivais de renome, do Goiás ao Texas. Tynkato não parou nem no hiato da banda, em 2017, logo criando a persona dançante do Cabra Guaraná para seguir com suas ações na música. “A proposta é fazer um som rebolativo tropicalista psicodélico sem limite de nada”, comentou em entrevista.


E a definição não decepciona: Cabra é para dançar malemolente por aí. Com mais de 100 músicas lançadas e tendo tocado em todo o Brasil, Tynkato criou e produziu todos os álbuns e singles que já soltou no mundão.


O músico tem apostado na inovação no grande período de testes que tem sido a quarentena. “A forma de se ouvir música deu um 360º. A coisa ficou bem volátil, isso eu senti na pele”, conta. “O mundo jamais será como era. A indústria da música vai ter que mudar e se adaptar a um novo cenário”.


No final de 2020 pôde reviver a sensação de fazer um show fora de casa com um convite da Virada Cultural de São Paulo, edição que teve formato online com algumas performances pelas ruas da capital. Cabra Guaraná tocou no brega-móvel, um mini-trio elétrico que deu voltas pelo centrão de Sampa.


Sabendo da quantidade de trabalho pela frente, Tynkato aposta na manutenção da positividade quanto ao futuro da música. A hora pede reinvenção e incansável renovação por parte do mundo artístico, e a entrada do Cabra na linha de frente da produção do selo promete muitas histórias. “Várias ideias maravilhosas surgiram em momentos de crise como o que estamos vivendo. Espero contribuir não só com o Cena, mas com a indústria da música no total”.



JOCA E O CENA CERRADO SP


Direto de Ribeirão Preto, a sede SP fica nas mãos de Joca Vita. Joca hoje faz parte do duo Justu, mas conheceu o Cena Cerrado em 2015 quando ainda fazia parte do trio ribeirão pretano Monofuzz. “Acertamos com o Arthur um show em Araguari. Dali para 2018, na noite do selo na SIM São Paulo, com o Justu, acertei com ele o envio de um material. Em 2019 entramos para o selo”, compartilhou.


O músico e publicitário começou sua carreira artística em 1984 em solo goiano, tocando em bandas como Quarto Mundo e Restos de Cultura Proibida. Na época também fez parte do “Existência Temporária”, movimento cultural com participações de nomes como Vladimir Saflate e Marcelo Solá. Na mudança para Ribeirão Preto, deu continuidade à criação musical com o trio Motorcycle Mama, lançado pelo selo Rock It. Na década de 90 fundou a Motormama e com a banda trabalhou em quatro álbuns, todos lançados pela carioca Midsummer Madness. Foi com a Motormama que Joca tocou em Barcelona no aclamado Primavera Sound Festival, em 2014.


Em toda sua trajetória, os feitos vieram em quantidade e variedade. Em 2001, produziu o festival Rock Naboa - no casting, bandas como MQN, de Goiás, Proto, de Brasília, e Momento 68 e The Butcher Orquestra, de São Paulo. Em 2016, formou a produtora Zuzapro, dando um pontapé de estreia com o festival Caium É Nosso, em Ribeirão Preto.


O trabalho de Joca esteve atuante para enriquecer e fortalecer a cena local e seguiu na mesma linha com diversos eventos e festas, como a Noite Turbina, RPCircula, Grito Rock, entre outros. Fez nascer o Cabeça Turbina Fest, em 2018, em parceria com o Coletivo Fuligem e a produtora Na Banguela. Reuniu vários artistas e bandas de Ribeirão, mais uma vez enaltecendo e movimentando a música local. Em 2018 e 2019 veio a festa Antropofagia, uma de suas produções que fez barulho na região.


É preciso acreditar na força do nosso próprio jardim e botar as mãos na terra do nosso quintal para ter frutos que chegue, e o trabalho de Joca reflete muito isso: mostrar pro que veio levando junto a gente e a força criativa de onde veio. Atualmente, por exemplo, o músico está em parceria na produção de um documentário sobre a cena musical de Ribeirão Preto.


A vasta experiência de Joca enquanto músico e produtor traz um olhar apurado para as novas atividades do Cena Cerrado. O artista se empolga com a ideia de um circuito de música possível de acontecer com os novos rumos do selo. “Meu grande sonho é participar da construção de um circuito de shows no Brasil, um circuito que viabilize o desejo de tantos artistas de se profissionalizarem”, diz em entrevista. “A expansão do selo e o projeto do Circuito Cerrado de Música me colocam dentro desse sonho agindo tanto quanto possível na sua realização”.


Com o novo estatuto de vida cotidiano instaurado pela Covid-19, Vita tem trabalhado de casa nas campanhas publicitárias e planejado com afinco os passos a dar na carreira artística junto ao duo Justu, ao selo e em outros projetos (inclusive, já podemos esperar um trabalho solo no horizonte, fica a dica).



As expectativas com o futuro que vira a esquina há tempos já deram as mãos à vontade de fazer e acontecer, e Joca acredita que a nova roupagem do Cena vai promover uma onda cultural de relevância para quem produz e quem consome. “Muita música independente de qualidade, com diversidade e posicionamento”, visualiza em síntese.



A ESPINHA ERETA E O CORAÇÃO TRANQUILO


“Seis anos de dedicação. É um tempo curto comparado a tantos camaradas que conheci na música”, relembra Arthur, o fundador do selo e as mãos que deram início a tudo isso. Arthur Rodrigues, natural de Uberlândia, acreditou nas sementes do meio ingrato da música e pôde ver crescer no quintal uma floresta plena de vida e história.


Em entrevista, recordou os momentos em que Rafael Vaz, seu parceiro de banda e produtor à frente do estúdio Casa Verde, mostrou a ele o som da geração mais nova que vem chegando e que ensaia nas salas do estúdio. “É maravilhoso ver a influência vindo de Lava Divers, Cachalote, Porcas Borboletas, Pulmão Negro. Lembro das ações que a gente fazia em praças, nas ruas, em escolas. Entre todos os frutos que colhemos, é o que mais vale a pena”.


O músico e produtor, apesar de ter viajado muitos quilômetros pelo Brasil para fazer sua arte, ainda tem como principal tela de inspiração o cerrado, a cidade onde nasceu e o que nela brota. Os muros e ruas da cidade mineira têm voz própria, e Arthur diz que estar atento a isso é acreditar num desejo coletivo.


A iniciativa da expansão trouxe força a sonhos antigos. A estruturação, que vem sendo planejada em reuniões desde o ano passado, possibilitou mirar um horizonte mais amplo. O selo tomava fôlego com o apoio de muitos amigos e artistas no alto de seu despontar em 2014, mas Arthur geria sozinho as decisões e produções. “O que faltava realmente era essa equipe. Com essa rede, as possibilidades são infinitas”.


Olhando através do tempo, quando começou com as festas em repúblicas e na UFU, é instigante vislumbrar os avanços no chão que tem andado. Seu movimento fez onda em tantos aspectos no triângulo mineiro que não é difícil enxergar na história de Uberlândia as linhas que o Cena tem ajudado a escrever.



A nova fase do selo que idealizou há seis anos o inspira a não parar de andar ainda mais longe. “Cena Cerrado me levou a lugares que nunca sonhei, transformou e me moldou como pessoa. Me faz crer no caminho da arte e da cultura como possibilidades de transformação de um lugar”, declara.


E aí? E você aí, do outro lado da tela?

Você está pronto pro que está por vir?


Sejam oficialmente bem vind@s ao Cena Cerrado Brasil!

(E chega logo, vacina…)


ANNA F. E O CENA CERRADO MG


Casa de joão de barro tem curva e cabe mais um, sim!

Eu sou a Anna, sou jornalista e também cheguei no mundo do Cena para fazer morada. Cuido da parte de comunicação e imprensa, além de também estar na linha de frente da produção da sede em Minas. Apesar dos desafios que ainda temos em mãos com a pandemia, espero que possamos trazer bastante riqueza de conteúdo, troca de conversa e movimento cultural a partir das atividades que vão acompanhar por aqui.



Sigam visitando o site e as redes do selo; muita coisa boa vem chegando.

Vambora, 2021! Que comecem os trabalhos!