Em cena/Festinha-surto-particular: Cabra Guaraná (DF) chega com novo single e clipe


A nova faixa “Rivotril” sai da gaveta do artista e o filme cria um diálogo familiar



Difícil mesmo é encontrar quem não teve de abraçar a loucura na rotina de quarentena em algum momento. É aquela coisa impossível de se medir: privações de toda natureza, o peso imperdoável do luto coletivo, a noção desordenada de tempo e futuro, medos concretos batendo na porta, acontecimentos políticos e econômicos beirando o absurdo, o complexo tecido social no qual nos dispomos cada vez mais frágeis e alienados. É só olhar pro lado e ver: de 2020 pra cá, o surto tem sido nossa linguagem comum - e com toda a motivação pra isso.


Em meio às medidas cabíveis para acalentar os dias desassossegados e preocupantes, vamos pulando de canto em canto que é pra não ficar só com a sensação de fim do mundo. Vamos trocando ideias sinceras e rasgadas com os chegados e chegadas, trocando de roupa com a saudade das coisas simples que podiam ser facilmente acessadas e vividas, dando e recebendo um chamego do que quer que faça a gente se conectar com alguma coisa boa. Todo mundo no corre e na busca de algum meio que extravase a agonia e dê voz aos desabafos, aos pensamentos soltos, aos sentimentos enraizados.


É sobre isso e tá tudo bem? Pra quem?


Ainda bem que uma das possíveis saídas para um aconchego particular continua sendo a arte, a movimentação (ainda que dificultada pelo cenário geral e cortes do desgoverno) resistente da cultura e, com certeza, a música! Nos bastidores do distanciamento social ainda tomando conta, artistas e grupos têm dado um jeito de surgir com novos trabalhos e botar pra jogo.


Na última sexta-feira, dia 29, quem deu as caras com mais um projeto delícia foi o Cabra Guaraná (DF). Das suas frenéticas produções em Brasília saiu o single “Rivotril”, acompanhado de uma produção audiovisual bem íntima e viajante, do jeito que a gente gosta.


Cabra Guaraná divide a vida com Tynkato e a troca é recíproca. O artista que traz um significado à parte para a vida das pistinhas se reinventa e se aloja num segundo-eu para caber nas ideias que quer tocar e cantar. Quem conhece seu trabalho sabe que o resultado desse ringue amigo funciona e muito bem.


Dessa vez, na movimentação entre produção de faixas e novas criações, nasceu “Rivotril”, um single dinâmico e embalado que é tudo menos acidental. De presente, o lançamento da faixa veio junto da degustação audiovisual, com o clipe feito em casa (segurança em primeiro lugar, amores, já passou álcool em gel por aí hoje?).


E, claro, o Cena foi bater um papo com o artista e produtor para saber do momento de lançamento, dos planos e da vida. Vem conferir essa troca:




Anna: Tynkato, chama o Cabra pra prosear! Me conta um pouco como anda a vida de produções na quarentena. Com quase 2 anos de distanciamento social e tantas limitações de execução, como tem se adaptado e feito acontecer?


Cabra Guaraná: Então, foi uma quarentena de aprendizado. Parei de lançar coisas porque eu vi um mundo mudando ali, ao vivo. Vi essa geração TikTok consumindo tudo de uma maneira completamente volátil e eu decidi parar de lançar música, fiquei perdido. Foi quando numa dessas buscas de autoconhecimento, eu vi que tinha que virar pra dentro. Por muito tempo a música foi minha maneira de me comunicar com o mundo, de desabafar. Mas parece que ao longo do tempo fui caindo na armadilha do algoritmo e fiquei tentando atingir algum sucesso repentino, tentando reproduzir coisas “da moda”. Foi um tempo bom porque aprendi a produzir, aprendi a técnica analisando tudo que encontrava pela frente. Mas agora é um outro lance, quero fazer o que me deixa feliz, fazer o som que, antes de qualquer coisa, toque o meu interior, minha alma. A música pode ter zero repercussão, mas me sinto realizado. Sinto que estou finalmente no meu melhor momento, pela primeira vez na vida gostei de algo que produzi, na totalidade.


A quarentena fez a cena artística se revirar pra continuar acontecendo. Diz a lenda que você participou de uma iniciativa bem pensada pro momento de distanciamento, com a proposta de uma espécie de "show ambulante" em São Paulo com Rita Cadillac. Conta esse rolê pra gente!


Nossa, esse rolê foi maravilhoso! Foi a galera da (festa?) “Je treme mon amour” lá de SP que agilizou. Eles criaram o Brega Móvel e, junto de uma galera muito foda, me chamaram pra tocar, em movimento, pelas ruas de SP. Foi bem em dezembro de 2020, a pandemia ainda no pico, e ter um momento daquele foi muito maravilhoso. Me senti muito bem, foi uma honra tocar com Givly Simons, DJ Tide, DJ Madruga, Gigante César e, claro, a grande Rita. Fiz muitos contatos e espero voltar em breve



E saiu "Rivotril"! O single já chegou com clipe e o público tá podendo te assistir nessa narrativa festinha-surto-particular. Em alta demais! Como foi a ideia da faixa e como fez para gravar o material?

“Rivotril” foi uma daquelas faixas que saem quando você tá editando uma outra faixa. Foi isso eu tava fazendo uma outra música e, do nada, achei um timbre de baixo muito massa no synth e veio a linha do bass junto com o melisma : tananá-tá-q-tá, aí fiz ela em 20 minutos. Agora o que deu trabalho foi o clipe. Pedi ajuda da minha namorada, ela cuidou da câmera e eu fui ali fazendo aquilo. Gravamos tudo num iPhone; o problema foi editar em 4k depois. Tive que editar sem ver o resultado por motivos de computador ruim (risos).


No clipe a gente pode ver um pouco dessa relação de dois gumes: Cabra Guaraná versus Tynkato. De que forma essas personas se concretizam isoladamente? E como funcionam juntas num feat, por exemplo?


Então, a Cabra Guaraná faz parte da personalidade maior que o Tynkato. Tynkato também gerencia outras personalidades (escondidas ainda), mas a relação é muito boa. Enquanto a Cabra é safadona e cara de pau, Tynkato é mais reservado, melancólico e psicodélico. Uma cara ainda não tinha influenciado totalmente a outra na música. E acho que isso aconteceu agora, juntei todos meus universos pra me dedicar a canções.



Com a vacinação avançando mais, a gente tá podendo sonhar um pouco. Como está de planos pro horizonte?


Nem me fale! Eu quero passar uns 3 meses desaparecido por aí, tocando em tudo que é lugar possível. Tenho planos de tentar tocar nos festivais. Acho que esse ano os festivais já estão com line fechado, mas ano que vem quero estourar tudo que é festival nesse Brasil.



E os projetos, o que podemos esperar? Como andam as colaborações e parcerias?

Eu chamei algumas parcerias para participarem desse novo álbum. Gosto muito de fazer collabs. Eu faço tudo muito sozinho e quando tem outras mentes pensando junto é sempre desafiador, mas também sempre um aprendizado muito bom. Uma delas é com os lindos da Urutau, que inclusive estou indo para Uberlândia para germinar essa track por completo.


A casa é sua, Cabra! Deixa seu desabafo, seu desaforo, um beijo pra alguém, uma indicação foda que conheceu por aí. Fica à vontade!


Deixo, como desabafo, a letra da próxima música que vou lançar:


“Hey mister tiktok

Dá licença porra

I’m too tired of your devil

IG, licença porra

nem tentá me assustar

dá licença, morra

Marola mansa da maré

Peço: me socorra


Algoritmo de merda

força oculta tinha

bota artista pra dançar

só por migalhinha

Cobra coral

treta vem atemporal

Ela é tão bonita

que eu to passando mal


Cry me a river

hoje é teu niver?

então não me belisque

deixe de ideia negativa


Cry me a river

deixa a lombra bater

que eu quero ver

deixa a lombra bater


Tô acordado, tô acordado, tô acordado

Era de aquário,

Agora eu entendo

os peixe

Vivendo afogado


Deixa eu demonstrar

Deixa eu viver

Deixa eu criar

Deixa eles me ver”


FICHA TÉCNICA Clipe e faixa todo produzido pelos próprios Cabra Guaraná e Tynkato. Gravado em Brasília com ajuda da Thallita Nascimento.