O que a vida pede é subversão: Skinny Carcas e a estreia solo em novo disco

Artista mineiro deslancha em álbum solo e performa atitude punk em sua monobanda


Uma banda de um homem só nunca chega sozinha. Quem carrega por si só o que seriam vários elementos para se fazer um som completo acaba por se tornar cada um desses elementos. É a multiplicação do artista num supremo caminho de construção autoral. Lembro quando conheci Tash Sultana e o pesado conteúdo mântrico que a música tecia, sozinha. A ideia de uma one man band nunca esteve tão viva e presente por aí.


A apresentação do momento fica por conta de Skinny Carcas & His Bone-Man Band, persona artística do mineiro Lukas Simon, com seu incrível projeto de one man band tomando forma. A estréia solo de Skinny Carcas dispara com Rockabilly Breakdown, um álbum explosivo que merece seu próprio momento de mergulho.


O disco é um chute rasgado no meio do peito de quem o visita pela primeira vez. Drogas, sexo e rock’n’roll não ficam de fora, mas não são o gatilho temático principal das canções. Impulsionado pelos diálogos dos tempos obscuros que vivemos, o conteúdo é alimentado também pelos desejos que fazem parte do nosso atual cotidiano, da gritante energia vulcânica que temos estocado em relação à vida que queremos passar a ter - aquela absurda vontade de tudo. Rockabilly Breakdown é combustível de um instante à flor da pele, e cada uma das dez faixas demonstra essa potência.


O projeto já vem sendo alvo do artista há algum tempo, que acompanha trabalhos do gênero. “Fui muito influenciado por dois grandes amigos que também têm seus projetos de monobanda, o Chelo Lion (MG) e o Big Bull (MG)”, contou Skinny Carcas em entrevista para o Cena. O útil se uniu ao agradável uma vez que o músico foi contemplado pela Lei Aldir Blanc de Uberlândia para financiamento do show de lançamento do álbum. “Os bastidores dessa criação foram bem trabalhosos porque, no fim, todas as decisões ficam centradas em você numa monobanda”, comentou. A gravação do disco aconteceu toda dentro do próprio quarto com um básico equipamento de home studio.


A quarentena moldou a forma como se consome cultura e arte, e, naturalmente, como todo o material de consumo é pensado e executado. O que chega até nós é resultado de um desejo inerente à carne, fruto de querer entregar ao mundo o que não pode esperar ou ser esquecido nas gavetas.


Skinny Carcas produziu Rockabilly Breakdown num epítome da política do it yourself, e conta sobre os específicos companheiros nessa viagem: uma placa de áudio Behringer, Ableton Live como Daw, sua guitarra Telecaster e o microfone Shure que usava em shows. De resto, sua vibrante presença no próprio palco criado para as gravações. A performance vocal do músico denuncia sua disposição corporal em cena: Skinny Carcas desmorona a fina borda entre artista e público ao se apresentar. Mesmo quando só no áudio do álbum, é possível prever essa entrada no palco com um vigor presencialmente forte.


O ruído lo-fi presente em Rockabilly Breakdown é um ingrediente bem-vindo que transporta para rasgos cinematográficos, costurando uma beleza própria e customizada nas músicas. Reproduz e muito fielmente a natureza da origem do rockabilly, que despontou nos anos 50 nos Estados Unidos como um dos primeiros sub-gêneros do rock. A impressão é de que entramos nesse universo ao dar play, pisando malemolentes numa pista quente e com baixa iluminação.


A sensação de corpo solto num lugar cheio é inevitável em faixas como “Human Wasp”, “Seeking For You” e “Stupid Idols”. O disco proporciona um instante de sonho: enquanto degustamos as músicas, cresce ao nosso redor uma bendita aura de festa lotada, com suor de pessoas dançando, destilado e gritaria. Saudades (vem, vacina!)...

O show de lançamento conseguido pela lei de fomento municipal aconteceu no dia 30 de março na Casa Verde Estúdio, em Uberlândia (MG). A apresentação foi o ao vivo possível de um tempo pandêmico, com amigos e artistas interagindo com o músico através do chat do link. “Já tinha feito live com outros projetos, acho até uma linguagem interessante”, considera Lukas, falando sobre a experiência no dia. “Depois da live rolou um after pelo link de transmissão e realmente deu pra sentir a falta que tem feito os rolês presenciais, ver as bandas, estar com as pessoas”. O show de lançamento de Rockabilly Breakdown está disponível na plataforma do YouTube.


Skinny Carcas é um dos tantos momentos artísticos de Lukas Simon. O artista tem uma longa trajetória musical. Na cena autoral, esteve (e ainda está em muitos deles atualmente) em projetos como as bandas Fuerza, Rotten Hell, Bad Thinker, KroW, Burning Movies, Condado Caramujo e Uganga. Haja fôlego porque tem mais: Black Beans, Fernanda Vital, Café-Pequi, Black Jack 21, Gentileschi 808 e, por último, o seu Skinny Carcas & His Bone-Man Band. Além do compilado autoral, o músico também já tocou covers na noite com Barato Total, Evil Stout, Tropical Ghost e The Satellites.


Lukas Simon começou a tocar ainda jovem, por volta de 12 anos, na ambientação experimental dos churrascos de família com “muita roda de música e muvuca”, como relembra o próprio artista. O interesse pela noção de um instrumento e seu domínio para criação nascia ali. Na altura dos 15 anos, teve sua primeira banda de hardcore/metalcore, a Fuerza, período onde teve suas primeiras experiências de shows e estrada. Lukas relembra sua entrada na banda de metal KroW como um pé na porta definitivo no meio artístico, onde teve a oportunidade de turnês européias e diversos shows pelo Brasil e pela América do Sul. Foram cinco anos com a KroW com inúmeras passagens por festivais, casas noturnas, eventos e teatros, que renderam ao músico histórias de toda natureza.


Rockabilly Breakdown é o dançante e enérgico som que precisamos para nossos tantos isolamentos do agora. O álbum é um pleno convite ao movimento puro da música e do corpo jogado nela. Toda a produção, masterização e mixagem do disco foram feitas pelo Skinny Carcas, no estúdio na própria casa que intitulou Broken House Home Studio. A arte de capa tem assinatura de Gordon Rise.


Nesse embalo, conversamos com o artista sobre sua estreia solo, o momento do lançamento e uma troca de figurinhas sobre as coisas da vida.


Confira a entrevista:


Fala, Carcas! Quais as referências que te moldam enquanto músico?

Tive a sorte e o azar de receber muitas influências de muitos estilos diferentes (risos). Sempre consegui encontrar algo positivo em quase toda expressão musical e isso me fez procurar por muitos estilos diferentes, tanto que acabei tocando em bandas dos mais variados estilos: MPB, punk, metal, rockabilly/country, blues, e até me aventuro num projeto de música eletrônica que brinco às vezes. Mas no fim, o que sempre me prendeu o interesse em manifestações artísticas foi o caráter subversivo, a atitude punk mesmo.


Conta mais disso, do que te nutre artisticamente ao compor uma letra, um som.

Desde o blues originário, rock dos 50 e 60, fase hippie, house e punk dos anos 70, 80, a virada moderna dos anos 90 pra frente. Em todos os momentos sempre existiram artistas que lutavam contra o status quo, pregavam liberdade, humanismo, algo mais verossímil. É essa atitude que no fim das contas me inspira e me chama a atenção. Consequentemente, essa perspectiva foi bem explorada pelas bandas de rock, proto-punk, punk e etc. Então esse é um estilo que eu me identifico e gosto bastante. Acho que ao compor eu busco tentar expressar essas duas partes ao mesmo tempo. As ideias variadas que me nutrem e a atitude subversiva também.


Você tem muito tempo de estrada. Me conta alguns marcos na sua trajetória artística.

Durante esse tempo, várias bandas já me proporcionaram várias situações das mais variadas (risos). Já passei bastante apuro, acidente em estrada (sem gravidade), treta em borda, festivais incríveis, e conhecer muita galera firmeza também, etc. Difícil lembrar e separar uma história específica, mas pra contar uma engraçada que vem à memória agora. Rolou esse festival que toquei com a KroW no meio das montanhas na Romênia, puta festival, estrutura foda. No fim das contas fiquei mais doidão do que devia e meio que perdi a carona da van que levava as bandas pro lugar de hospedagem. O festival tinha espaço pra camping, mas eu não tinha levado nada. Acabei dormindo no palco, maior friaca, tentei me cobrir com o bumbo de bateria no meio da noite (risos). No fim de tudo acabei encontrando a van de uma banda amiga, o Bucovina, que me abrigou dentro da van e finalmente deu tudo certo.


De onde surgiu Skinny Carcas?

Há muito tempo já projetava ter um projeto monobanda, por influência de vários artistas que admiro. A pandemia tendo impossibilitado o contato e os encontros, minado as apresentações em grupo, acho que foi a lei Aldir Blanc a contribuição final que eu precisava pra botar em prática mesmo. Sobre o nome, eu sempre fui chamado de Carcaça (risos). Quando apareceu a possibilidade de usar esse nome no projeto foi uma decisão unânime na banda.


E dos lados daí, como tem sido a quarentena para você?

Particularmente a questão do isolamento em si não me afeta tanto porque eu consigo e até gosto às vezes de ficar sozinhão mesmo. Mas do jeito que tem sido é bem impossível não se afetar. Todo o sofrimento que a doença causa a tanta gente, os absurdos que temos que lidar diariamente vindo do desgoverno absurdamente alucinado e genocida que temos. Toda a crise que estamos passando realmente dificulta o bem-estar e a estabilidade, mas tenho tentado justamente me manter ocupado para manter a cabeça mais sã e conseguir passar por esse momento.


Já podemos esperar mais novidades no horizonte?

Provavelmente sim. Com as músicas gravadas, eu devo me aventurar em tentar reproduzir um videoclipe na pegada dos que eu gosto e me influenciam. E quero continuar compondo músicas e quem sabe já soltar um single ou EP ainda esse ano.


Qual a importância da arte para você em tempos tão tenebrosos? Quem é o artista em tempos de isolamento?

A arte sempre foi e será uma ferramenta de transformação e comunicação muito importante. A história da arte, da música, não deixa negar que ela promove uma forma de comunicar a realidade das mais verossímeis possíveis. O artista é alguém que observa o mundo com um olhar específico e traduz essa percepção em forma de criação e narrativa. E diferente da História, o artista além de retratar o mundo atual, ele configura e cria ideias e mundos diferentes, sendo assim um motor de transformação social e pra visão de mundo que as pessoas têm. Em tempos tenebrosos ela se faz mais importante ainda. Para denunciar e expor a verdade do que acontece de forma sinestésica, e para criar novos mundos mais coloridos, energéticos, alegres, otimistas.


Esse espaço é seu. Bem vindo ao Cena! Deixa pra gente um recado, um desabafo ou desaforo, um beijo pra sua mãe, um filme ou show que tem visto, um álbum pra dançar na sala, o que quiser.

É um grande prazer pra mim poder fazer parte do Cena junto com tantos artistas que conheço e admiro!

Leiam a trilogia do Harari, se cuidem bastante e tentem deixar a mente ocupada. Amem o máximo que der e vejam (diariamente, se possível) shows ao vivo do Stooges (de qualquer época). Concluam que o Iggy Pop é um dos maiores frontmans de todos os tempos (risos). Peace!



Conheça agora Rockabilly Breakdown, álbum de estreia de Skinny Carcas. Confiram também a live de lançamento do disco.