"Tudo em chamas, mas tudo bem": Justu e o novo clipe de As Favas

por Anna F. Monteiro


Quanto maior o absurdo, mais forte a anestesia. A pressão de viver em dias absurdos sai pela culatra e vira comodismo. É quase um movimento orgânico possível de observar, a cabeça de um sujeito descansando na desordem de um tempo injusto. A política da incoerência em ação que acompanhamos todos os dias vai se tornando a mais comum das coisas aos nossos olhos.


O país ferve, mas tudo bem.

O absurdo está sentado em nossa mesa de jantar, mas tudo bem. Tudo arde em violência, queimando em piras de eventos injustos e desesperançosos, mas segue tudo muito bem. O absurdo é uma temperatura com a qual nos acostumamos e convivemos em dormência.


As inquietações de tempos impossíveis foram desenhadas no novo clipe do Justu, que saiu no dia 25 de setembro. As Favas, single de 2020, ganhou cara com roteiro e atuação de Suhelen Tica, atriz conhecida dos músicos. Na gravação, a oferta da falta de sentido como parte da casa, da rotina, da vida. O clipe nasceu de conversas que voltam no golpe de 2016 e a revolta com o que ele desencadeou. Tá tudo em chamas, e ainda assim tudo bem; ecoa a provocação do duo paulista.


A reflexão do roteiro conversa com a anestesia crítica e sensorial que acabamos vivendo diante das coisas. Junto a tudo isso, nós, sujeitos, corpos confusos e cansados. “As mentiras e injustiças foram se acumulando e acho que isso me anestesiou. Percebi o todo e como tudo que não deveria ser encarado como normal já estava sendo”, conta Joca Vita, vocalista e guitarrista do Justu, sobre quando tiveram a ideia do clipe.


Suhelen Tica, que atuou, também cuidou do roteiro e teve plena liberdade criativa para executar sua visão. O trabalho rendeu numa estética nonsense dançante a partir do olhar e presença de Suhelen, que perambula por um apartamento entre caras e gritos mudos, encarando com naturalidade tudo o que não faz sentido. Tudo está fervendo, mas tudo bem.


Em entrevista, Joca contou mais sobre a produção, o cenário da música independente e o que tem acontecido nos bastidores do Justu.



Anna F.: Como nasceu o Justu?

Joca: O Justu nasceu em 2017. Eu gravei o primeiro EP sozinho usando bateria eletrônica. Ainda em agosto fiz contato com o Jofra, velho conhecido da cena punk da cidade. Em seguida começamos a ensaiar depois de um bom e longo papo na mesa de um bar.


Produzir material na pandemia tem suas dificuldades. Conta mais sobre como aconteceu a gravação de “As Favas”.


A pandemia limitou quase tudo em relação à produção com filmagens externas e tudo mais. Conversei com a Suhelen Tica sobre a idéia e ela recrutou a Ju Marques. Ambas são da cena do teatro daqui de Ribeirão Preto. Demos total liberdade para elas criarem. Sei que as filmagens foram feitas no apartamento da Suhelen. Pelo resultado final imagino que deva ter sido bastante divertido para as duas. Eu participei do processo depois, na edição. É uma marca do Justu fazer os vídeos em preto e branco. Dei um toque final no belíssimo trabalho delas.



Vocês já estão na cena musical em outros projetos há algum tempo e acompanharam muitas mudanças no meio. Quais as demandas mais desafiadoras para quem trabalha com música independente hoje em dia?


Sem dúvida nenhuma, a maior demanda para qualquer artista da música é espaço. Os músicos, bandas e afins tem em seus shows a melhor forma de levantar dinheiro para sobreviver. Porém, no Brasil, ainda não existe um circuito estruturado que pague por transporte, alimentação, hospedagem e cachê. Eu digo isso pensando naqueles artistas que ainda não tem um nome no cenário nacional. Se houvesse um circuito minimamente organizado, que viabilizasse a circulação do que eu chamo do "andar de baixo", seria ótimo.



Como é a quarentena para um artista? Quando a ordem é estar em casa para se estar seguro, como funciona a criação de vocês?


Não estamos ensaiando por possuirmos pessoas do grupo de risco em nossas famílias. Isso paralisou a criação do duo. Eu como compositor estou bem ativo no violão e na voz. No caso do Justu, isso é um problema. Não consigo traduzir toda essa carga criativa para a nossa estética. É frustrante e gera uma ansiedade nervosa que acaba refletindo novamente no processo criativo.

Joca, pergunta bônus. As imagens do clipe são regidas por uma espécie de nonsense, como a cena da atriz segurando um espelho diante do manequim no lugar de se observar nele. No final, depois de sair correndo pelas escadas, ela coloca um comprimido na boca e o clipe se encerra. Nossa geração está se acostumando com a falta de sentido dos dias, naturalizando as coisas mais incomuns. Tem remédio para isso?


Eu penso que a arte é o melhor instrumento para entendermos nossos sentimentos e angústias. Ela é o remédio para a parte desta geração que pensa. Existe um outro grupo que deixa rolar frouxo e nem sente. No dia que esse grupo bater de frente com a realidade sofrerá horrores. Aí quem sabe algo de diferente possa aparecer no horizonte perdido.


Confira agora o lançamento As Favas:

Produção: Juliana Marques e Suhelen Tica.

Roteiro: Suhelen Tica.

Atriz: Suhelen Tica.

Edição: Juliana Marques, Suhelen Tica e Joca Vita.

Gravação, Mix e Master: Felipe Maia (Estúdio Baboo Music)

Produção Musical: Justu


SELOS

Cena Cerrado Discos e Pisces Records.




*As imagens dessa matéria são do acervo de divulgação do Justu