Agora que você misturou, querida, álcool com aquela cápsula

O novo EP Outras Trilhas do Joe Silhueta e as novidades do porvir



Existem tantos mundos quanto se é possível contar do alto da noite ao despontar do sol. São vivências de pele, mãos que se juntam e se agitam, pés que não param de ler todo lugar que passa. Das narrativas sobre cair e levantar e cair de novo, conhecemos bem. A noite enorme, o pontual brilho do amanhecer e tudo o que persiste em se desdobrar entre uma coisa e outra.

Os brasilienses do grupo Joe Silhueta já nos envolveram com essa trajetória-revelação em Trilhas do Sol, lançamento de 2018. Dessa vez, a banda vem apresentar seu novo EP Outras Trilhas, uma espécie de segmento do álbum anterior com brindes à memória. Afinal, no sentimento de saudade temos tido a matéria prima do cotidiano presente - de reviver muito e outra vez.

O que havia ficado de fora do trabalho anterior agora pôde ter seu próprio espaço. O repertório das trilhas que nos levaram ao sol excedeu o momento finito de um álbum e acabou sendo revisto e trabalhado para sua segunda parte que sai agora, sem intenção anterior de fazê-lo. Ao acompanhar os cancelamentos de eventos e shows no início da pandemia, o grupo escolheu esperar um período mais propício para o lançamento de um álbum pronto que estava em mãos e se engajaram no projeto de Outras Trilhas.


“Tínhamos essas músicas que haviam ficado de fora do primeiro álbum, faltando gravar vozes, teclados e mais umas coisinhas”, contou Guilherme Cobelo, cantor e compositor na banda. “Acabamos aproveitando para finalizá-las e lançá-las. Era para ter saído em 2020, mas só conseguimos agora”.

Outras Trilhas conta com quatro faixas que saúdam do rock de Raul Seixas ao folk lúdico com vibração de mantra. Aqui, pode-se reviver a sonoridade vigorosa da banda em “Esconderijos”, “Vaqueiro Pobre”, “Bicho bicho bicho” e “Cena Maravilhosa/Eternamente”. Produzidas por Guilherme Cobelo e Jota Dale, com masterização de Bruno Giorgi, as referências do Joe Silhueta se cruzam e criam um baile-registro de um tempo.

Cobelo conta que as músicas já foram escritas há algum tempo e todas foram arrematadas e concluídas em casa para o EP. “‘Bicho bicho bicho’ veio de uma vez só: ao piano, fim de tarde, fumacê, letra e música psicografadas”, relembra o cantor. “Tem um quê de balada antiga sua versão original, que apareceu em Ritos do Leito, de 2016. Esse arranjo da banda que lançamos agora já tem outras viagens”.

A potência lírica do material reverbera nos tempos sinistros que acompanhamos atualmente com uma assombrosa pontualidade. Os sentimentos se encontram, um a um, no que nos rasga o peito agora. “Que monstros carrega em seu coração?”, entoa na faixa Bicho bicho bicho; e já sigo refletindo dos pesos que tem nos aterrorizado de dentro para fora em tempos de distanciamento social. “As horas do ponteiro estão te deixando louco”, canta Esconderijos, “o pesadelo de estar preso na cidade vem à tona outra vez” - e me pego encarando a paciente loucura em digerir a necessidade do isolamento, da distância das pessoas e das coisas como o modo mais seguro de vida.


Joe Silhueta, embora com sua transcendental atuação longe dos palcos e do público em carne e osso, não perdeu nem um decibel da sua capacidade sonora e poética. Assim nos prova Outras Trilhas, com sua declaração de contemplações e descarregos. O trabalho iniciado em um período tão à parte do atual dialoga e muito bem com este.

Vale lembrar que a última faixa, “Cena Maravilhosa”, foi feita em cima de duas músicas do vanguardista Walter Franco e gravado num primeiro momento para a coletânea Um grito que se espalha, lançado pelo selo Scream & Yell e organizado por Leonardo Vinhas em 2018.

A produção caseira de Outras Trilhas contou com algumas participações especiais, como o arranjo dos kazoos de Pedro Pastoriz em “Bicho Bicho Bicho”, o órgão de Jota Dale em “Esconderijos” e o soar dos trompetes e trombones de Edgard dos Santos em “Cena Maravilhosa/Eternamente”. A arte da capa é assinada por Alexandre Lindenberg, responsável também pela capa de Trilhas do Sol, uma estratégia estética de contar da história continuada.

Vamos apreciando o EP enquanto nos aguarda o lançamento do próximo álbum. Sobre saltos y outras quedas já está pronto e já atiça a imaginação pelo nome em verso. “Tamo doido pra soltar ele no mundo! É uma outra onda. Não tem muito a ver com Trilhas do Sol, mas tem algo que o conecta com todos nossos trabalhos anteriores”, adianta Cobelo. Vão ter singles antes do lançamento do próximo álbum e alguns clipes a seguir, também comentou o compositor. Já dizia a poeta: já tô com a roupa de ir.

Joe Silhueta nas Trilhas do Sol | Foto: divulgação

Em entrevista, fiz um pedido de subjetividades e Cobelo deixou afagos em formas de dicas de boas coisas para se conhecer. “Os textos e poemas de Tatiana Nascimento, o filme La Cravate do Alejandro Jodorowsky, ‘Orín, a língua dos anjos’ da Orquestra Afrosinfônica e do maestro Ubiratan Marques”. E completou o recado numa anunciação: “Estamos morrendo de saudade de tocar! Os shows são nossas melhores memórias. Dá-lhe, vacina, pra ver se a gente se reencontra…”

Conheça agora o EP Outras Trilhas (do Sol), de Joe Silhueta, lançamento da Cena Cerrado DF: