Sou o sorriso do canto de boca: Estreia de Floresthá com o single “O que não cabe”

A artista paulista cruza linguagens da arte e lança clipe do single


Certa vez, o autor do célebre “Germinal” ponderou sobre sua própria presença no mundo. “Se você me perguntar o que eu vim fazer neste mundo, eu, um artista, te responderei: estou aqui para viver em voz alta”, disse o escritor francês Émile Zola quanto aos pareceres de como habitava e se colocava no tempo em que vivia. A arte, penso em consonância, se propõe como uma existência em alto e bom som, de um corpo autoral ressonante que se projeta para o coletivo ao redor.

A artista Floresthá abre a porta para viver em voz alta seu momento de lançamento com o single “O que não cabe”, prévia do que poderemos experimentar com seu EP que está por vir. O EP Habitat guarda o mundo da artista, o seu próprio eu, que se nutre de ferramentas cênicas e a produção musical para construir a sua arte. “O que não cabe” estreia com clipe dirigido, produzido e captado por Floresthá e Aloander Oliveira.

Thais Foresto é natural de Ribeirão Preto e cunhou Floresthá para reproduzir sua narrativa estética dentro da arte: uma mulher de coração-semente que se descobre floresta viva. Atriz, artista independente e produtora cultural há mais de 10 anos, Thais esteve em contato direto com diversos trabalhos artísticos nessa jornada, da música ao teatro, da performance à atmosfera circense.

Compôs-se do que aprendeu na formação em Artes Cênicas e técnica em música, enxergando a poesia possível a partir da junção das linguagens diversas. Durante longos períodos trabalhando em trilhas sonoras para espetáculos e projetos audiovisuais, a artista expandiu seus conhecimentos musicais a partir das vivências com o teatro.

Floresthá saiu das próprias gavetas particulares, onde vinha compondo desde 2009. Estimulada por movimentos que agem na presença da mulher na música e a importância de projetos autorais, percorreu caminhos de vastas experimentações e estudos aproximados sobre produção musical para construir o todo de sua persona artística, caminhando para o que hoje é o corpo do EP Habitat, que não demora a vir à tona na íntegra.



A estética visual da artista é um elemento de degustação à parte, assumindo um personagem potente que toma vida quando canta. Todo o seu trabalho carrega o mesmo traço visualmente expressivo.

Sobre existir em voz alta, não há espaço para dúvida alguma. A presença de Floresthá ressoa em diferentes texturas e trejeitos que vibram o que veio dizer. Existe algo vigoroso na figura de uma mulher artista que se traduz na linguagem da performance. Munida também de música, Thais Foresto acaba por criar um combo que habita um chão rico de possibilidades. A mulher que resiste e se expande através da sua arte compõe um quadro bonito de se presenciar, conjunto que nos atinge como em cerimônia mística.

Sem raiz que a segure em terra firme, Floresthá traz um experimento cênico para suas produções, do figurino à aura estrutural, da escala de timbres sintetizados à postura fluida. “O que não cabe” cria um espaço para escapar à própria margem. Nela, entre batidas eletrônicas e a síntese da voz feminina de Thais, ouvimos do vento um espectro de manifesto particular.


Trechos como “eu vim dum minuto antes de partir/ subi mil terras e depois corri/ pulei da dor, então agi” desafogam um sentimento de quem se liberta pro mundo a partir de todos os capítulos de sua história, inclusive e principalmente dos mais penosos. Não é daí que crescemos mais?

“Uma vez eu vi uma mulher que enquanto gritava”, canta Floresthá no single, “dançava, rodopiava. Parecia então um grito maior cheio de sol, de lá, de fá - de si”. O simbólico recorte declamado pela artista revela muito do que há por trás de seu trabalho: uma mulher que se movimenta e dança com seus gritos, fazendo deles algo mais a ser explorado. “O que não cabe” é o tipo de som que se consegue ver em cena, tomando forma, ao ouvi-lo. Todas as suas texturas entram em jogo para ser performance de palavra, melodia e corpo.

A composição e o arranjo são de Floresthá, assim como a produção musical. A artista trabalha também na edição de vozes e gravação junto a Aloander Oliveira. Duophono toma conta da mixagem e masterização da faixa, nas mãos de Érika Lobo e Gabriel Mathias. Na arte de capa e fotografia, a assinatura é de Aloander Oliveira.



Estreante na família do Cena Cerrado, rolou um papo bom com Floresthá sobre sua arte e impressões criativas. Confira agora a entrevista:



Anna F.: Bem vinda ao Cena! Você começou a produzir música a partir da vivência com as artes cênicas. Como uma coisa acabou construindo e intervindo na outra, a música e a performance?

Floresthá: Primeiramente, gostaria de dizer que é um grande prazer fazer parte do selo.

Bem, as artes sempre estiveram na minha vida. Parece até meio romântico falar assim, mas foi exatamente isso. Me lembro das brincadeiras de criança e tudo o que eu mais gostava envolvia criação, faz de conta, música, teatro e dança. Mais tarde entrei para a faculdade de Artes Cênicas e lá comecei a usar a música como ferramenta para meu trabalho de atriz. Depois comecei a fazer aulas e a criar trilhas para os espetáculos que fazia parte. Aos poucos as linguagens foram tomando o mesmo peso. Hoje em dia trabalho compondo e produzindo trilhas para outros trabalhos cênicos e audiovisuais também. Aprender produção musical está me proporcionando isso. Então eu costumo pensar que nenhuma linguagem artística vem sozinha quando estou em trabalho de criação. Sempre uma está dando base pra outra, porque pensar assim faz parte da forma como fui construindo meu lado profissional.


Suas apresentações são conhecidas por trazerem um aspecto experimental aliado às ferramentas da potência teatral. Conta um pouco sobre os bastidores da produção de quando se apresenta. Como funciona a montagem da sua identidade no palco (físico e virtual)?

Primeiro realizo a montagem e passagem técnica de som. Depois vou para o segundo round, como chamo, que é a caracterização. Gosto de experimentar adereços, figurinos e maquiagens. Eles falam muito de quem sou também e como vejo o mundo. Essa segunda parte é demorada porque, enquanto artista independente, ainda faço sozinha. Às vezes essa parte dura até duas horas se for uma caracterização que eu ainda esteja experimentando. Mas não é uma problemática, eu gosto bastante desse momento. Fiquei um tempo usando a mesma caracterização, mas percebi que a fluidez nessa estética é muito bem vinda e contempla o que acredito enquanto artista.



Quais os trabalhos que já participou que te marcaram? Conta sobre alguns marcos da sua trajetória artística.

Nossa, tenho alguns, mas vou escolher apenas um que me marcou muito, porque foi no início da carreira e tenho certeza de que ajudou a me moldar como artista. No primeiro ano da faculdade, eu nunca tinha apresentado nada de forma profissional e surgiu uma Ópera para atuar como figuração. O projeto era grandioso: três horas de espetáculo, pessoas renomadas na equipe, teatro com mais de 1500 lugares, coração a mil e ainda ganhando meu primeiro cachê pra fazer tudo aquilo. Foi uma experiência e tanto pra quem tinha acabado de entrar na faculdade. Reconheço minha sorte e privilégio. Aconteceu de apresentar em um teatro muito conhecido na minha cidade, Ribeirão Preto, e uma das apresentações caiu no dia do meu aniversário. Foi uma grande festa comemorar fazendo aquilo que havia escolhido enquanto caminho. Foi como uma confirmação que deu muita força pra que eu não desistisse, eu diria. Com o dinheiro que ganhei com este trabalho, sabe o que comprei? Meu primeiro violão! Uso ele até hoje em espetáculos onde atuo e toco e também nas minhas composições. Tenho um carinho muito grande por essa lembrança porque me traz simbologias muito fortes.


Para quem vai ter um primeiro contato com seu trabalho, vamos abrir os trabalhos das apresentações protagonizadas. Para um olhar que te visita pela primeira vez: quem é Floresthá?

Floresthá sou eu, com os ideais que acredito, mas extravasada em forma lúdica e poética. Quem me vê montada no palco pode pensar: “ah lá, um personagem...”. Mas eu não acredito nisso. Lá estou livre e com licença artística para ser e fazer as coisas como acredito. Aos poucos, acho que as pessoas vão entendendo isso e entrando no jogo. No final, eu quero mesmo é trazer um momento em que as pessoas possam ser quem são, dançando, cantando, se divertindo, da forma como se sentirem melhor. Olha eu romantizando de novo... (Risos)


Para você, qual a importância da arte em tempos tão macabros e desafiadores?

Acredito que a arte tem sido uma das grandes salvações nesse momento. Seja em sofrimento, alegria, raiva ou abstração, as artes possibilitam expurgar tudo isso de uma forma profunda, podendo trazer reflexões ou permitindo extravasar esse momento de crise humana e financeira. Quem passa por algum momento catártico ou recebe algum insight durante uma manifestação artística, seja ela qual for e onde for, não se esquece. A conexão com o trabalho vai além do racional. É ritualístico. Mágico.


Como e onde busca inspiração para a sua narrativa artística? Quais suas referências norteadoras?

Ainda estou em descoberta dessas referências. Foi um pouco difícil encontrar pessoas que estivessem experimentando alternativas semelhantes às que escolhi em trabalhos autorais e por isso fiquei patinando às escuras por um tempo. A principal delas acho que é Björk. Apesar de ainda não conhecer todo o seu vasto trabalho, é a referência que vejo, essa mistura de linguagens, de forma muito clara. A indumentária e interpretação, sempre muito bem pensada, dialogando com a música. Já como cantora, me inspiro muito na intensidade de Elis e na versatilidade de artistas como o Ney Matogrosso. Ambos de presença cênica sensacional. No teatro e performance: Marina Abramovic e Letícia Sabatella são bons nomes a serem explorados. Dentre inúmeras outras referências, é claro.

Duas personalidades atuais com as quais me identifico são Luana Flores e Luna Vitrolira.


“O que não cabe” é o pontapé material do EP que está por vir, o Habitat. Qual tema ronda esse momento criativo?

“O que não cabe” estreia como abertura para o EP “HABITAT”. Nele, cinco músicas que serão lançadas ao longo de 2021 trarão através das letras, arranjos e show uma pesquisa de texturas e cores que potencializam a essência do habitar, buscando realçar tanto seu significado literal que remete à natureza, quanto o seu significado metafórico de pertencimento, lar, segurança para ser quem se é.

A partir da produção musical e da live performance, e influenciada por essa vivência nas artes cênicas, busco unir trilha sonora e indie-eletrônico a fim de aproximar minhas composições a uma dramaturgia sonora e meu show a uma experiência cênica. No contraponto trazido pela densidade que procuro trazer das letras, pelos samples e pelas timbragens sintetizadas, investigo simbologias que representem o paradoxo do ancestral e do contemporâneo, da humanidade e das máquinas, do selvagem e do urbano, do sagrado e do profano.



Como aconteceram as gravações e produções do material?

Por todo o contexto da pandemia, produzi “O Que Não Cabe” aqui em casa, durante essa quarentena e, com meu companheiro Aloander Oliveira, que também é músico e produtor audiovisual. Gravei as vozes e realizamos a filmagem do videoclipe numa produção enxuta onde fizemos tudo, desde o roteiro, edição, captação, etc, usando nossa própria casa e lugares isolados como cenários. A mixagem e masterização ficou por conta de sua parceria com Érika Lobo e Gabriel Mathias da Duophono. Toda essa parceria também foi estabelecida de forma virtual.

Acredito que, hoje em dia, com os home studios e a acessibilidade à softwares de produção musical, o lançamento de uma música se torna muito mais democrático, sem perder a qualidade. Muitos álbuns de sucesso foram produzidos em casa. Billie Eilish é um grande exemplo.


E dos projetos de gaveta? Tem alguma ideia que queira colocar em ação logo mais?

Tenho sim. HABITAT é um trabalho muito voltado para o ser, sua história e experiências. Nasceu de vários mergulhos, descobertas e reflexões internas. Para o próximo projeto quero trabalhar minhas composições com temáticas amorosas, mais voltada para o externo, o outro. Buscando talvez uma estética mais urbana, brega, kitsch. Mas ainda há muito a se trabalhar. São apenas ideias iniciais.


Esse espaço é seu. Deixa um alento, desabafo, um beijo pra mãe, um recado pra alguém, uma indicação de algo bom para assistir, ler ou ouvir. A casa é sua.

Eu gostaria de mandar um alento nesse momento. Acho que conseguir viabilizar esse EP. nessas condições da quarentena vem muito da vontade em poder realizar algo que pudesse servir como ferramenta para que as pessoas se ocupem, reflitam, vivenciem a vida e o isolamento de outras formas. Então quero oferecer esse trabalho como um presente para qualquer pessoa que queira descobrir e redescobrir seu HABITAT tanto de forma concreta (sua casa nessa tentativa de isolamento para quem pode fazê-lo), como abstrata (olhar para si). E claro, cuidem-se. Usem máscara, álcool em gel e se hidratem. Força pra gente, vai passar!



OUÇA AGORA O SINGLE "O QUE NÃO CABE", DE FLORESTHÁ:
















FICHA TÉCNICA:

Single: "O que Não Cabe".

Composição, arranjo e interpretação: Floresthá.

Produção musical: Floresthá.

Gravação e edição de vozes: Aloander Oliveira e Floresthá.

Mix e Master: Duophono.

(Mix: Érika Lobo e Gabriel Mathias / Master: Gabriel Mathias).

Arte da capa e fotografia: Aloander Oliveira.

Identidade Visual da Logo: Júlia Souza.

Videoclipe: "O que Não Cabe".

Roteiro e atuação: Floresthá.

Direção e produção: Floresthá e Aloander Oliveira.

Captação, edição e colorização: Aloander Oliveira.