Com faixas que atravessam territórios e memórias, Carolino (MG) lança seu álbum de estreia

O disco homônimo do artista canta dos lances da vida e traz reflexões sonoras de outros cantos do país



Um amigo comentou esses dias num diário pessoal de pandemia sobre o que tem sido criado nesse período abominável apesar dos apertos no peito. A quarentena tem sido casa de ideias. De cansaço também, muito cansaço: não há como fechar os olhos para o luto coletivo que é diário.


Frustração e tristeza, medo diante do incontrolável caos, uma impotência diante de tudo somada a uma ira internalizada quanto às nossas estruturas sociais e políticas. E, ainda assim, e também tendo o conjunto como combustível criativo, a arte segue salvando, juntando nossos cacos e levando para outro lugar.


Depois de dois anos de mergulho na produção, o músico e compositor Carolino (MG) encontrou nesse momento a brecha para a finalização de seu álbum de estreia. O disco Carolino tem sido preparado a várias mãos e lentamente temperado pelas mais diversas influências artísticas da década de 70 até os dias de hoje.


Com pontapé bem-vindo na primeira faixa com “Olaiá”, que já havia sido apresentada como single, fica vibrando um gosto bom sobre o que está por vir. “Quero só acordar/ com a sensação de estar tudo no seu lugar” - confere, Brasil? Mais válido pro nosso presente só se fosse duas vezes disso.


A música brasileira se desdobra por todo o disco em muitas das suas demonstrações e texturas, trançando inspirações das nossas geografias sonoras. Carolino, que vem de muitas andanças pelo país e uma longa temporada pelo Nordeste afora, deixa claro as influências de suas movimentações através do seu som e forma de compor.


A obra de estreia de Carolino sucede os lançamentos dos seus quatro singles. “Mediamar”, “Olaiá”, “Au Revoir” e “Navio de Papel” adiantaram um pouco do conteúdo sensorial do álbum, que constrói uma estrada musical fácil de se trafegar.


O leque de temas está aberto à identificação imediata: do mar ao amor, das marchas pela estrada e a ternura do retorno para casa, dos tantos rumos de saudades à ilusões inevitáveis do caminho. O trajeto de Carolino é o cotidiano em que se está presente, encarando as camadas emocionais para expressá-las.


Recortes como “a falta faz o tempo inteiro/ qualquer dia em qualquer lugar/ mais um dia pra variar” fazem pensar no estado insone das nossas inquietudes, e da mania íntima de terminar um dia acreditando nas possíveis belezas do outro que está para começar. Minas segue encontrando o murmúrio do sertão nas músicas, balançando as ideias em embalos fonéticos como “eu andei com mediamar, andei/ eu amei com mediaguar”. Suave água que bate nos pés.


Juntar as mãos é o que dá gosto e as parcerias desse projeto não deixam a desejar. Além de tomarem conta da sonoridade da guitarra e da bateria, Mauro e Samuel Fontoura cuidaram da produção através da Infrasound Records, de Florianópolis.


Os irmãos por trás da feitiçaria absoluta que é o Muñoz fizeram parte da construção do álbum desde o seu despertar. Numa equipe de peso, inclusive: Chico Abreu assinou as linhas do baixo, Fabio Cadore na percussão, aqui com participação também de Diogo Costa. Os vocais que acompanham Carolino são de Karina Akashi e Emília Carmona.


“Grave um disco devagar”, já bem cantava quase que num arrepio de voz a querida figura do Jards. Os dois anos de produção se fizeram valer e é perceptível nos detalhes deixados pela obra. A narrativa percussiva e das cordas é uma viagem à parte dentro do todo. As composições de diferentes momentos, pessoas e lugares se encontram num ponto em comum, seja nos trejeitos técnicos ou devaneios temáticos, enaltecendo o álbum enquanto unidade feita de diversidade sonora. O tempo de uma coisa pela coisa em si, sabe como é? Um long-play devagar quase parando… Sussurro de um trabalho que respirou sem pressa.


Conheça de pertinho, ouvindo no pé do ouvido, o aconchego musical balança-quadril do álbum Carolino.


OUÇA AGORA O ALBUM "CAROLINO"











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FICHA TÉCNICA

Voz e violão: Carolino (@carolinooficial)

Guitarra: Mauro Fontoura (@maurofonttoura)

Bateria: Samuel Fontoura (@samuelvilelafontoura)

Baixo: Chico Abreu (@maredmarofa)

Percussão: Fabio Cadore (@kadorekun)

Participações:

Percussão: Diogo Costa (@dio.costa)

Vocais: Emília Carmona (@emiliacarmona_) e Karina Akashi (@karinaaka)

Produção: Infrasound Records (@infrasoundrecs)

Mixagem/Masterização: Braz Torres Neme (@braztn)

Fotografia: Cléo Theodora (@cleotheodora)

Realização: Cena Cerrado Brasil (@cenacerrado) | Alcalina Records (@alcalinarecords) | Rifferama (@portalrifferama)