Cachalote Fuzz (MG) lida com as frustrações e fúrias no novo single “Inerente”

A faixa vem carregada e prepara terreno para terceiro álbum dos mineiros


2020, Uberlândia em algum ponto alto do bairro Tabajaras. Junho já ia caminhando pro seu fim. Naquela casa verde, ponto de passagem artístico e cultural, o dia amanhecia num emaranhado de cores quentes. Texturas calorosas, tempo fresco, corpo pronto.


A Cachalote Fuzz (MG), já longe dos shows e turnês com a política da quarentena, esfregava os olhos insones para se apresentar no celebrado quintal do estúdio Casa Verde, do produtor Rafael Vaz. Bem cedo, aumentando o barulho conforme surgia o sol, a session gravada por Sandrow Almeidan foi o último encontro formal para tocar algumas faixas do Sobrevida, álbum lançado em maio do ano passado.


Com muitos projetos na gaveta e em processo de trabalho interno, a Cachalote Fuzz (MG) abre passagem um ano depois com o single “Inerente”. A banda da psicodelia navegante do cerrado mineiro traz dessa vez um pancada sonora para dar jeito e voz aos descontentamentos dos nossos dias.


Composta pelo vocalista Iuri Resende, o single segue rumo para explorar as vertigens do garage rock, se jogando aos beijos com o pós-punk e o noise numa mistura só. Se “Bar das Famílias” (Sobrevida/2020) veio num pulo dançante, “Inerente” bate na porta com os dois pés.


A percussão marca um tempo pesado para guitarras em processo de derretimento. Nessa onda que vai aumentando e vem pra pele, todo cuidado é pouco com os flashbacks lisérgicos das noites que a gente não voltava para casa. Sabe como é…


Como numa ode desmontada para sons como Smashing Pumpkins e Black Rebel Motorcycle Club, a construção do single deixa no ar uma espécie de desaforo orquestrado. De 2020 pra cá, sabemos bem, não tem sido nada bonito. Saber transferir isso para uma linguagem, seja qual ela for, tem sido ferramenta de sanidade para muitos.


Em “Inerente”, é possível enxergar um tanto de cada coisa: as mãos moendo na bateria em toques surdos, quase em ritmo de chamado, o choro psicotrópico-fazendo-efeito das cordas das guitarras, a voz mansa em estado bruto de descontentamento. Vai tudo formando um gradiente, acrescendo em volume. É sobre isso: inquietudes estruturais desgostosas performando seus gestos no mesmo tabuleiro.


O trabalho na letra é elementar e dá conta do recado. “Mas é mesmo assim/ nem tudo é como a gente quer” vai sendo espancado pela presença de cada instrumento em jogo. Na linha de frente dessa formação: Romero Filho e Marcelo Chiovato nas guitarras, Arthur Rodrigues na bateria e Rafael Vaz no baixo.


Engatando na conversa, Arthur Rodrigues falou um pouco sobre os bastidores da banda e o que está por vir.



Anna F.: Como foi a produção do single que estão lançando agora?


Arthur: Esse single, na verdade, é parte da época que a gente preparou o Sobrevida. A música tinha uma mensagem, mas não era daquele momento, era outra proposta e sonoridade. Agora com todo o movimento político e social que estamos vivendo, esse panorama de caos, nos pareceu o melhor momento para poder trazer ela pro nosso trabalho. É nossa música mais pesada até então e traz uma coisa que desperta raiva diante de tudo o que temos vivido atualmente: um governo genocida, a falta de vacina, a quantidade de mortes que poderiam ser evitadas, injustiça social. Além dela falar de algo que a gente teoricamente tem que aceitar de todo jeito, por mais que não queira.



Bota as novidades na mesa… O que a gente pode esperar da Cachalote Fuzz?


Completou um ano do lançamento do último disco. Esse single chega para reiniciar os trabalhos e preparar o terceiro álbum da banda. Ele promete vir carregado novamente, e devemos começar as gravações agora em julho. Antes desse momento, tem uma série de clipes para fechar com o álbum Sobrevida. Esse material foi produzido e gravado em Ouro Preto por uma equipe maravilhosa e deve chegar agora no início do segundo semestre.


O que tem tocado muito nos seus dias esperando a vacina? Deixa aquela lista boa pra quem vai dar o play em “Inerente” já emendar numa espiral boa.


Olha, tem tocado bastante o som da Léza, da Mulungu, uma banda de Recife que acabei de conhecer. Tem também a Dom Capaz, que já acompanho desde sempre, Tagore, que tá pra lançar disco novo, e os Boogarins, que lançaram dois discos durante a pandemia. Muito Jards Macalé e toda a turma do Cena Cerrado Brasil, que tem soltado trabalhos sensacionais por aí.


OUÇA AGORA E ASSISTA O LYRIC VIDEO DE "INERENTE", DA CACHALOTE FUZZ