O avante delas: Mulheres na política, o voto feminino em 2020 e as direções que desejamos


Em meio a um cenário de conservadorismo extremo no país, a gente segue na peleja de sobreviver ao surto sem enlouquecer. A agenda fascista consolidada formalmente com as eleições de 2018 se desenrola dia após dia diante dos nossos olhos, revelando a macabra potência do retrocesso aplicado como regra.


O movimento extremista do Brasil foi afirmado pelo voto popular, reverberando no poder público a fala patriarcalista, racista, violenta e fundamentalista que vemos na nossa rua, no bairro onde moramos, na escola, no trabalho, dentro de casa.


No último domingo, dia 15, aconteceram por todo o país as eleições municipais. As pessoas foram às urnas para votar no rumo coletivo que acreditam para suas próprias cidades. Munidos com máscaras, acessórios de sobrevivência e consciência coletiva durante a vida pandêmica, o movimento de domingo muito pôde contar sobre a quantas anda a capacidade de mudança de cada lugar e para onde caminha a nova possibilidade de recomeços locais. Inclusive, nessas eleições, o próprio uso ou não da máscara já serviu de antemão da posição política de cada um que saiu para exercitar sua cidadania.



A VOZ DELAS


Em 2018, foi decidido no STF a garantia de 30% do fundo partidário para a campanha de mulheres dos partidos, pequena evolução de uma lei eleitoral vigente desde 1997. A medida de cotas, no entanto, pouco colabora com a candidatura de mulheres se dentro dos próprios partidos o itinerário de atividades e recursos ainda segue nas mãos de interesses patriarcais, priorizando suas próprias questões. Ações e tomada de decisões a partir dos tantos “clubes do bolinha” que só mudam de nome e lugar, comumente compartilhando uma mesma maneira de agir e pensar. Neste ano em Uberlândia, foram 287 candidaturas de mulheres contra 609 de homens para as eleições dos futuros ocupantes da Câmara, uma porcentagem que mal cobre o mínimo exigido pela lei eleitoral.



As mulheres, que historicamente foram privadas e invisibilizadas do exercício da vida política, ainda lutam por uma maior representatividade nas estruturas de poder, ainda sob predominante comando masculino. Mais de 50% do eleitorado nacional é feminino, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral. Nossa voz, no entanto, ainda é minoria na atuação de base. O afastamento feminino de forma involuntária das ambiências políticas e tomadas de decisões da vida pública são cruciais para entendermos a importância de iniciativas que promovam e reconheçam mulheres como agentes de liderança e mudança.


Votar em mulheres é cada vez mais uma decisiva posição política nos tempos em que vivemos. É parte da cultura patriarcal a tentativa constante de manter em lugares fixos e limitados nichos de sujeitos diversos ao padrão masculino e branco com poder aquisitivo. Os entraves históricos e estruturais de gênero são verdadeiras barricadas para conter o avanço de uma política mais diversa e representativa. O exercício do voto em mulheres que pensem suas agendas a partir de pilares progressistas é a quebra de paradigma que precisamos; colocar mulheres no poder é o rumo para mudar nossas vidas de forma absoluta, da base ao topo, do individual ao coletivo.


No quintal de casa, a conquista feminista despontou numa brecha de luz nas eleições de 2020. Em Uberlândia, o nome mais votado para a Câmara Municipal foi o de uma mulher. Brilha Dandara na cidade que vinha elegendo em sua maioria um desgastado perfil político. Dandara Tonantzin, do PT, teve mais de 5 mil votos em apoio à sua proposta de virar a mesa do poder. Dandara, pedagoga e rumo ao título de mestre em Educação. Dandara, que mora no São Jorge e que adora dançar. Dandara, mulher preta e determinada voz ativista do movimento.



O FIO E A CONTA


Dandara já tem em seu nome, escolhido pelo pai, a liderança ancestral herdada da guerreira do Quilombo dos Palmares, reforçando em sua assinatura a força de divindades maternas na alcunha indígena Tonantzin. Sua campanha foi aberta e teve natureza colaborativa, tecendo o processo que enxerga como um colar de contas feito a várias mãos, segundo entrevista em podcast: ela se coloca como a conta, que compõe e soma; e o fio, que interliga e une.


A fala da então eleita vereadora volta para questões que são mais do que necessárias para andarmos rumo a um horizonte mais otimista e humano, como a denúncia do racismo em qualquer forma, a travessia da agenda feminista nas iniciativas sociais e urbanas, o apoio às expressões culturais negras na agenda cultural da cidade, a defesa do reconhecimento de religiões de matriz africana e a implementação do ensino da história e cultura afrobrasileira nas escolas (conforme a Lei 10.639/2003). Seu plano de mandato percorre pelos temas que precisam ser constantemente discutidos e colocados em ação, da valorização da cultura negra e da violência de gênero à preocupação ambiental e em relação ao espaço urbano (especialmente no que diz respeito à segurança pública para mulheres). Dandaras movimentam toda uma estrutura quando se movimenta e sua eleição, mais do que nunca, é um fôlego de fé para todes nós.


Dandara, candidata com mais votos em Uberlândia (Foto: Reprodução/Facebook)


Assimilar a vitória da pedagoga de 26 anos é entender o recorte de um novo movimento possível na cena local. Dandara eleita reflete o esgotamento e o grito que nos atravessa. Em 2018, tivemos certeza do que se temia confirmar em números: vamos rumo a uma assustadora forma de vida. Lembro bem do assombro de cada pessoa de dentro das redes resistentes, amigas, repassando quantidades numerosas de família e amigos que colocaram seu apoio em mãos de extremistas.


Acompanhamos retaliações de quem é contrário ao contexto, ataques de violência à população pobre, negra e LGBTQI+, campanhas de desinformação freneticamente forjando a razão de um surto coletivo, contínuos desmontes de avanços alcançados, arbitrariedade de direitos básicos, perseguições, censuras institucionais e midiática, assassinatos, opressões e retrocessos de toda natureza a pleno vigor. Com fome de avançar, vimos o Brasil que elegeu Bolsonaro revelar sua real identidade na forma de uma onda de ódio e ignorância. Não, não é segredo nem difícil de se ver: a náusea e a descrença tem sido nosso café de bom dia desde aquela amarga vitória.


Um impulso de mais mulheres progressistas na cena política é um significativo fio condutor para que a ação do poder público se volte para tópicos e necessidades reais da nossa sociedade. Foi a bancada feminina vigente, por exemplo, que conseguiu abranger a discussão de um auxílio emergencial de maior valor para mães solteiras durante a pandemia. Importante também ressaltar a urgência da prática de uma abordagem feminista interseccional, que atravesse e entenda a diversidade de experiências das mulheres (cis e trans) e as demandas desafiadoras conforme raça, classe e gênero.


Vozes vitoriosas como a de Dandara são de vital importância política e social pela sua força de representação e símbolo de ruptura sistêmica de dentro de uma casa de iguais.

Numa terra e tempo onde ainda imperam os coronéis numa cíclica política de manutenção de privilégios e interesses, Dandara é o bem vindo pé na porta, e com a força de mais de 5 mil pessoas que escolheram a efetiva mudança de novos ventos.


Fonte: Reprodução/Twitter



FERNANDA VITAL, sobre Uberlândia (MG):

Não poderia ser diferente. O avanço progressista notado no resultado dessas eleições é uma resposta às atrocidades observadas na política mundial dos últimos anos. A igualdade e a diversidade nunca foi tão debatida, e este é o momento das mulheres, do povo preto, da diversidade de gênero e da diversidade como um todo. Incrível. Espero que as questões ambientais estejam na mesma importância. Espero muito pois nunca tivemos governos com a pauta ambiental como prioridade. E precisamos entender urgentemente que a diversidade que tanto se almeja caminha junto com a consciência sistêmica. Mas sem dúvida domingo foi um grande dia. Um salve muito especial a todas as mulheres guerreiras presentes nessas eleições. Nossa vez! ❤️

ENZO BANZO (Porcas Borboletas) - Uberlândia (MG):

Uma coisa é mudar os nomes, outra coisa é mudar os paradigmas. A expressiva votação da Dandara é retrato disso. A maior bancada feminina da história de Uberlândia é retrato disso. Não é só renovação de nomes, muito menos velhas práticas disfarçadas de novas. É uma conquista, uma abertura para identidades de vozes que até então não tinham voz. Elas tem muito o que dizer e se farão ouvir. Delas ecoa a mudança que precisamos construir.


O QUE SERÁ QUE SERÁ


2020 foi o ano que as campanhas eleitorais precisaram se reinventar para acontecer nas ruas e nas redes com a situação de quarentena. Os desafios não impediram que fosse o ano com recordes femininos na disputa pelos espaços de poder. Foram mais de 522 mil candidaturas em todo o país; as mulheres preencheram apenas 184 mil delas, segundo o TSE. As candidaturas de mulheres, autodeclarados negros e indígenas cresceu nas eleições de 2020, mas os números não chegam nem perto de uma mudança de fato significativa.


Na realidade massiva, os partidos de direita ainda têm números assustadores nos pleitos. MDB e PSDB, por exemplo, foram os partidos com mais votos dos eleitores esse ano, com disparado crescimento nos números do PSD, DEM e PP (siglas desmembradas do Arena, partido do regime militar). Celebramos as vitórias locais que promovem mudança, mas o cenário segue sendo definido pela intolerância e conservadorismo no corpo das administrações.


Na sufocante trajetória de extremismos que ainda estamos, busco me alimentar dos pontos de ruptura que vão se fazendo valer, como a eleição de Dandara. Também vão ocupar as cadeiras na Câmara Municipal de Uberlândia as então eleitas Cláudia Guerra e Amanda Gondim, que partem de uma premissa feminista e politicamente engajadas em suas áreas. Cláudia, do PDT, é professora universitária e ativa nas causas das mulheres. Amanda, também do PDT, é advogada e promotora de ações de acessibilidade e justiça social. Além de ter tomado o posto de maior número de votos da eleição, as mulheres têm recorde de ocupação feminina no Legislativo uberlandense na nova gestão, com candidaturas eleitas. É inevitável: o movimento promovido por mulheres progressistas é chave para transformação social e da inovação da conversa de políticas públicas. A conquista de cada uma dessas mulheres terá desdobramentos fundamentais agora e para as eleições do porvir.


Na capital mineira, outro recorte para dar corajoso ânimo: a vitória inédita de Duda Salabert, do PDT. Duda, que é professora de literatura, foi a vereadora mais votada da história de Belo Horizonte, com mais de 37 mil votos.



Duda, à esquerda (Fonte: Reprodução/Facebook)



Duda é ativista dos direitos humanos, ambiental e dos direitos dos animais, sendo também idealizadora de um importante projeto de educação na capital, o Transvest, que oferece cursos gratuitos de pré-vestibular para travestis e transexuais em situação de vulnerabilidade. Duda é uma mulher trans e almeja ser a primeira prefeita travesti do país. Até então, BH tinha apenas quatro mulheres dentre as 41 cadeiras da Câmara. Com os últimos resultados serão 11, a maior presença feminina da história da Câmara de BH, que teve a maior renovação de vereadores dos últimos anos.


O problema nunca foi a falta de interesse ou ambição política de mulheres, mas a cultura machista e hostil arraigada no imaginário cultural das pessoas, da nossa formação subjetiva à nossa trajetória coletiva. Mulheres precisam de todo o incentivo e subsídio para a travessia desses obstáculos colocados na nossa cultura, podendo, enfim, exercer o poder de sua voz e abrir caminho para outras. Votar em mulheres é votar em perspectivas de maiores importâncias.


O retrocesso intolerante hoje governa o país e marca forte presença nas mesas de jantar entre família, nas ruas e nas redes. É nosso desafio, individual e coletivo, fortalecer nossas redes de resistência e virarmos o jogo em toda oportunidade. Virar a mesa do poder! Dandara bem diz, e 5 mil vozes fizeram eco à sua. Virar a mesa de todas as maneiras simbólicas e estruturais ao nosso alcance para caminhar juntos rumo à uma nova forma de vida.


A mesa do poder vira e se desmonta quando nosso voto é para uma mulher, esse corpo em constante movimento político. Você, que me lê outro lado da tela: defenda, acompanhe e fortaleça o legado que as vozes femininas podem deixar, fomento bruto das mudanças que precisamos ver acontecer. Vote em mulheres.



Alguns artistas da família do Cena contaram um pouco sobre suas impressões das eleições de 2020 e do movimento das suas cidades. Confira:


ARTHUR RODRIGUES (Urutau/Cachalote Fuzz) - Uberlândia (MG):


Feliz com a guinada progressista nas cidades, principalmente com o avanço pro segundo turno de Boulos e Erundina, e de Manu em Porto Alegre. Por aqui, na câmara de vereadores de Uberlândia, o nome mais votado foi de Dandara, uma mulher, negra.

O que mais considero na política, ainda é a representatividade, e acredito que a política deve agir quanto às diferenças sociais, de gênero e raciais, infelizmente ainda tão gritantes. As mulheres são minoria ainda na câmara (7 no total de 27 vereadores), cenário visto em todo o país, mas acredito no poder delas como principais nomes na mudança de uma cidade que ainda respira conservadorismo. Um recomeço, um passo importantíssimo contra os anos de retrocesso que tivemos na eleição que escolheram o fascismo como agenda. Como disse Mano Brown naquela época: “se tiver de voltar pra base, vai voltar”. Entendemos o recado. Do pior jeito, mas entendemos.



MAURÍCIO WINCKLER (BLACK JACK 21) - Uberlândia (MG):

DEM e PP continuam fortes. Aos poucos a onda fascista vai se dissipando. A esquerda descobre que o PT não necessariamente é a única opção. PDT, PSOL, PCdoB, entre outros, ganham espaço.


As mídias de Miami se frustram com suas apostas na permanência dos ideias golpistas da era Cunha/Temer: "tem que manter isso daí", e sua continuidade com Olavo da Vaquinha e os militares de gravatas sujas. Existe uma esperança: Wal do Açaí teve apenas 70 votos na capital miliciana da Colônia.





CIRO NUNES (PÁSSARO VIVO/FESTIVAL MARRECO) - Patos de Minas (MG):

Patos de Minas vive num delay de 4 anos em relação a política no Brasil. Aqui é tipo uma Bacural provinciana. Enquanto outras cidades vem dando uma resposta nas urnas, Patos reafirma seus valores conservadores. Aqui, tirar foto ao lado do presidente corrupto e genocida ainda dá votos, aqui só colocamos uma mulher na câmara, aqui na facção patureba os amigos votam nos amigos, mesmo eles não tendo projetos e mesmo eles representando aquilo tudo que você lutou contra o ano todo.

Mesmo com esta análise negativa, estou muito feliz com alguns cases de campanha que com certeza foram um princípio de luz nesta cidade, e não vai parar por aqui.

Parabenizo em especial a iniciativa inovadora Karla Bel Mandato Coletivo e a incrível campanha para prefeito do Hermano Caixeta. Ainda, aos eleitos Professor Daniel Gomes e Vitor Porto, cujos conheço suas atuações de longa data e sei que farão uma boa gestão para a nossa cidade. Ano que vem tô lá, apresentando a todos os projetos que temos pra cultura de nossa cidade.



JOCA (JUSTU) - Ribeirão Preto (SP):

Muito bom o avanço progressista na câmara de Uberlândia. Espero que isso possa refletir para além das pautas identitárias, numa política de exigência do poder executivo na implantação de uma política cultural inclusiva e diversa.


Aqui em Ribeirão Preto, SP, aconteceu também um avanço progressista, mas mais importante que isso, a mobilização em torno das eleições criou novas pontes que, sem dúvida nenhuma, ajudará na elaboração de diversos projetos. Resistência sempre, amigos. Ah, e fiquem atentos pois o governo federal vem sinalizando um corte no sistema MEI, incluindo nossa categoria. Não vamos permitir.



FEITICEIRO JULIÃO, de Recife (PE)


Aqui no Recife tivemos uma eleição em que o povo mostrou sua insatisfação com os rumos do país. O bolsonarismo foi derrotado e tivemos candidatos e candidatas do campo progressista eleito, com destaque para as mulheres.

No 2º turno teremos dois candidatos do campo progressista, que deixaram a extrema direita para trás. Ficamos feliz com o crescimento de vereadores do PT e PSOL nas capitais.





Felipe Genaro (Pulmão Negro), de Uberlândia (MG)

Apesar dos avanços conquistados com a eleição da Dandara, Amanda Gondim e Cláudia Guerra, ainda falta muita caminhada para o campo progressista ocupar mais espaços em Uberlândia.

A principal dificuldade está superar a regra do Quociente Eleitoral.

Nessa eleição vimos o PP eleger 5 vereadores, a estratégia usada foi lançar o máximo de candidaturas para bater o número de cadeiras.

Já os partidos de esquerda optaram em lançar candidaturas que representam as demandas sociais e o trabalho de base. Com chapas "menos numerosas" porém "mais qualificadas", a esquerda bateu na regra do Quociente Eleitoral. A exemplo, apesar da votação recorde da vereadora Dandara, o PT só conseguiu uma cadeira.

A única forma de superar os partidos da ordem é dando voz às ruas. Os partidos devem chegar cada vez mais nas periferias para construir novos quadros políticos para a nossa cidade.


Camilo Rodovalho (Milo Recs), de Goiânia (GO):


Em Goiânia, poucas mudanças na Câmara dos Vereadores, uma vez que, entre 35 eleitos(as) apenas três assumem pautas progressistas. Entretanto, é importante lembrar que dentre estes três vereadores com pautas progressistas eleitos tem-se um legítimo marxista, defensor histórico dos direitos humanos em Goiás: Mauro Rubem, cirurgião-dentista, líder sindical e ex-deputado estadual por 3 mandatos no estado. Mauro Rubem é membro da tendência EPS (Esquerda Popular Socialista) no Partido dos Trabalhadores e foi eleito vereador neste último domingo com 3608 votos.


Carolino, de Patos de Minas (MG)

Desde 2016 o Brasil tá igual uma música nossa que se chama Ladeira Abaixo. Mas eu ainda acredito que com o tempo, informação, tropeços e aprendizados a gente, pessoas do mundo, vai respeitar mais as coisas por aqui nesse mundão. Em relação a eleições municipais não posso opinar muito porque é a quinta vez que justifico o voto. A representatividade das minorias aumentando, a visibilidade em políticos que querem trabalhar pro povo aumentando e isso sozinho já fala muita coisa. #elenao