O som da fruta quando madura: a estreia de Ariane Santos com o EP Processos Verdes

Artista de Ribeirão Preto lança primeiro álbum em meio a pandemia e reflete os desassossegos do cotidiano


Você acorda sereno mesmo depois de ter levantado há muito tempo da cama - é levantar de novo, pisando leve na vida. Divagando, seguindo na firmeza como quem cria raiz no chão que escolhe enquanto cresce com as ideias rumo ao barulho da noite. É a primeira sensação que molha os pés ao mergulhar em Processos Verdes (2020), o álbum de estreia de Ariane Santos lançado no dia 2 de outubro. Desde o primeiro momento, é como cuidar de um jardim particular num centro de cidade cheia.

“ah, eu não sei voar

cansei de não te ver, de só te imaginar

cansei de te querer, e não te encontrar


mas vou te escrever, te musicar

cantarolar

seu nome na varanda

na sala de jantar

no quarto ou no chuveiro

quando for me lavar

escrevo no espelho pra poder me lembrar

te ponho no meu disco

pra te imortalizar”


A composição lírica de Ariane remete a um lugar de intimidades urbanas em pleno voo inquieto. O trabalho é resultado de uma parceria amiga no interior paulista: de um lado a composição e música de Ariane, do outro a intervenção sonora e estética de Sølda, codinome de João Lucas Monteiro. Em beats, cordas e vocal, os dois caminham pelo samba e a toada da MPB, regados a um decisivo ritmo eletrônico que em muitos momentos convida a estética lo-fi.


São 5 faixas desenhando quereres, os sentimentos desconfiados e questionadores de todo dia, imaginando (re)encontros. Clamando um honey baby que anda distante, frutificando a música enquanto se alimenta também - contemplando as ruas enquanto contempla a vida. Entre o desabafo e o descanso, entre o embalo e a sede de mundo. O violão manso se junta à tropicalidades eletrônicas, terreno em que a paulista brinca com a voz da forma que bem deseja. “Eu gosto de fazer trilha sonora, adoro usar todo momento do meu dia para ressignificar com música. As músicas tem esse tom de devaneio mesmo, confortável”, compartilhou Ariane sobre a narrativa de seu som.


Na ativa em vários eventos e festivais desde 2017, Ariane é natural de Ribeirão Preto e, além de música, também trabalha com artes plásticas. Sølda é projeto recente de João Lucas, mas o músico tem atuado na noite da cidade desde 2014 em trabalhos autorais e junto a outras bandas.


Ariane Santos & Sølda / Foto: divulgação


Processos Verdes evoca os espaços íntimos de cada um porque é construído a partir de um. Trabalho feito a duas mãos em quarentena, Ariane e Sølda se encontraram apenas em dois momentos, sendo todo o resto feito de suas casas. O EP também traz à cena a baixista Cacau Dourado, que participa de Paradigma, e a Alan de Faria, que toma conta da percussão na mesma faixa e em Meu Disco.



O trabalho de estreia canta a memória do corpo através da cidade e dos dias, traduzido em som direto daquilo que nos habita e move, do que vemos e sentimos rua afora, casa adentro. “Eu sou só um ator, o filme é seu”, e já fico imaginando Ariane diante da folha em branco colocando as sensações em ordem na desordem bonita da poesia e do canto. O violão não se basta nas cordas dedilhadas e Ariane não se basta nos minutos arredondados de cada som, que, com a estética de João Lucas, parece estender e se prolongar como braços abertos na chuva. Como a arte de recordar a forma da vida acontecida, o álbum embala quem chega com uma toada de vontades e os pensamentos bem soltos - “em carne e osso e mal.




O Cena conversou com Ariane sobre todo o processo. Chega mais!


Anna: Ariane, como começou seu movimento na música?


Ariane: Sempre toquei algum instrumento. Gravava o que sabia tocar, na ocasião ouvia o que minha mãe ouvia. Elvis, Elis, Bob Marley, Gil, Adriana Calcanhoto, então enquanto tinha aulas de violão tentava tocar essas músicas que ouvia em casa.

Comecei a tocar nos bares da cidade e, durante esses três anos, toquei com outros músicos muito importantes pra minha influência musical - Márcio Bah, Deva Millie, Andrea Millie, Natália Brunelli, conversei muito com o Agrício Costa, toquei também com Alan De Faria, João Lucas (que está no EP)... Pessoas que são pra mim influências do samba e da música brasileira. Enquanto minhas referências de voz eram Amy Winehouse, Norah Jones, Joss Stone, KT Tunstall, John Mayer, também comecei a prestar atenção nas composições de Jorge Ben, Caetano, Bethânia, Baden Powell, Tim Maia, o samba que carrega um ritmo fonético brasileiro com um tempo de blues, do soul, do jazz.

Conta pra gente como funcionam seus processos de criação quando chega a hora de fazer música. Como você acontece no tempo da sua arte?


Meus processos de composição ainda são meio orgásmicos rs... Estou encontrando meu controle artístico para ter constância e técnica para compor, mas sempre acontece de compor uma música no dia dia. Pensei essa melodia lavando uma louça, ou ligando para um cliente no call center. De algum jeito já havia pensado essa melodia e me tocou. Então na hora de compor a letra eu procuro ser o mais cotidiana possível, falo de prédios, luzes, trânsito, farol, falo de tudo que todo mundo vê e convive. Assim quem está ouvindo minha música vai chegar perto da experiência que eu tive compondo. As melodias tem esse tom de lembrança, e todo mundo devaneia com lembranças.



Como fluiu a construção das composições?


As músicas foram feitas bem antes de querermos fazer o álbum; só a faixa Meu Disco que fiz no processo de gravação. Eu estava fazendo umas músicas do Baden, do Jorge, e ficava brincando com os delays, subia no Soundcloud. Então o João ouviu, resolvemos gravar Tempo de Amor, ficou bacana. E foi aí que João me provocou a gravar minhas composições, mas costumo pensar que quando eu coloquei essas melodias e letras na frente do João ele sofisticou elas e de um jeito super gênero, não colonizatório. Quando colocamos alguém com teoria musical para ler a cabeça criativa de alguém que trabalha empírico é desafio para ambos, e o João me entende muito bem com a construção das músicas.

Ouvindo o álbum, me bateu uma malemolência saudosa. O que fez Processos Verdes nascer?


Gosto muito de MGMT, Júlio Schin, o Caetano, que usam de subjetividade com palavras literais, melodias simples e embalantes. As letra são quase um sábio conversando com você sobre vida, quase didático. Eu uso as músicas pra isso, aprender e sentir de um jeito bem egoísta, e acabo esperando que as minhas músicas sejam isso para as pessoas. Entendo que nem sempre seja, até porque depois que sai do papel a música não é mais só o que está na nossa cabeça... Cada um vai usar ela pra alguma coisa, e é nisso que mora a beleza. As músicas desse álbum são instantes, momentos que juntos formam uma memória musical que se encaixa no momento que você quiser.

O Processos Verdes acabou de sair pro mundo e tem um balanço difícil de deixar passar. Teve algum tema ou sentimento que se sobressaiu mais na hora de escrever?

Nenhum sentimento específico, são mais sensações, impressões da vida, reflexões. Eu gosto de falar sobre a vida com meus amigos e quando componho eu coloco esses devaneios sobre vida nas músicas. Muito raramente estou falando de amor ou tristeza. Às vezes tô falando sobre dúvida, medo, rotina, quase uma conversa passivo agressiva. De alguma forma meu tema é vida urbana. Eu parto de mim e das pessoas pra escrever, eu curto melodias que te colocam em loop, numa hipnose melódica.

Qual a história por trás da escolha do nome, Processos Verdes?


Esse nome vem da música Dê a volta do álbum. Quando fiz essa música eu liguei planos à frutas, quando a gente compra verde, enrola no jornal e deixa amadurecer mais rápido na cesta de frutas. Ainda que tenha que esperar, processos verdes vêm de planos que a gente precisa tirar da gaveta, enrolar no jornal e deixar madurar para vivenciar esses planos, amadurecer para comê-los. Fala de aprender a esperar mas se movimentar na sua espera, são processos que estão verdes mas em processo, em movimento.

Quais sons te inspiram enquanto artista?

Eu gosto de Carne Doce, Boogarins, Caetano, Jorge Ben, Clube da Esquina, Regina Spektor, Marisa Monte, Norah Jones, Natalia Lafourcade, Jorge Drexler, Gil, Bethânia, tenho muitas influências que me somam em diferentes setores da música..

Como tem sido sua quarentena no interior paulista?


Haaa, eu estou trabalhando, preciso sair de casa para trabalhar num call center, acho que é o que mantém minha cabeça no lugar… Trabalhar, cuidar das plantas, estudar, fazer coisas da faculdade, minha quarentena está sendo trabalhar e estudar, então nada mudou. O desafio é ter tempo nessa quarentena pra fazer tudo, uma eterna guerra com a procrastinação.


Ariane Santos / Foto: divulgação


Desligue a tv, deixe o rádio tocar”. Arte tem sido uma grande aliada para respirar em meio à tudo que estamos vivendo. O que tem tocado na sua rádio de quarentena?


Nossa, estou ouvindo muito Clube da Esquina, Jorge Drexler, muito Tábua de Esmeralda do Jorge, o álbum Bailar en la cueva do Jorge Drexler, François Muleka, o álbum Fauno Aflora, Ava Rocha com o álbum Trança, lindíssimo! Acoustic Extravaganza também. Tenho ouvido Doces Bárbaros, às vezes uns Bon Jovi , Rolling Stones rs..


Já tem outros projetos no horizonte?


Sim, tem músicas sendo feitas já, músicas com outra vibe, só ouvindo mesmo. Nem eu sei o que vai ser ainda, agora é trabalhar esse processo pós lançamento e começar a escavar agenda para trabalhar o próximo, e tá bem bonita já.

Ariane, esse momento é seu. Manda um beijo pra quem quiser, uma dica boa pra rotina de quarentena ficar menos densa, uma cena de filme, um recorte de texto. A casa é sua!


Um beijo pra todo mundo que “tá” em casa na quarentena, pra quem “tá” trabalhando, tem que pegar busão, carro, bicicleta, mas que “tá” em movimento ainda. Uma dica boa pra rotina é ter um caderninho pra anotar qualquer coisa, rabiscar, seu caderno do desassossego; eu devo ter uns cinco. E é claro, ouçam muita música.

Vou deixar a última coisa que assisti nos últimos dias, foi um documentário da Netflix que chama Meu Professor Polvo. Fala sobre um cara que começou a observar e desenvolver uma conexão com um polvo, então vou aproveitar o gancho… Observem mais as coisas, anotem tudo que te afeta e usa sua rotina como pesquisa. Eu sei que a vida é corrida, cheia de b.o., nunca temos um tempo livre pra pensar, mas lembre-se: “me organizando posso desorganizar”.


Confiram na íntegra o EP Processos Verdes, de Ariane Santos e Sølda. Os lyric videos do álbum também estão disponíveis.


Ficha Técnica:

Voz, guitarra e composição: Ariane Santos

Guitarra, violão, baixo, synth e programações: João Lucas Monteiro (Sølda)


Participações:

Baixo: Cacau Dourado

Percussão: Alan de Faria

Fotografia: Amanda Veronez

Direção de Arte: Ariane Santos

Arte da Capa: Amanda Veronez e João Lucas Monteiro

Mixagem e Masterização: João Lucas Monteiro (Sølda)

Produção Musical: João Lucas Monteiro (Sølda)

Assessoria de imprensa: Michelle Maria