“Quando eu ouço eu te amo”: sai na íntegra Amor de AM, de Enzo Banzo (MG)

O projeto solo do artista chega para rasgar o peito em novo álbum

No carro, na padaria e no bar da esquina que nunca fecha. Na cozinha da vó, na mecânica da rua paralela e no ônibus de mil paradas. Seja onde for, a memória afetiva das transmissões dos rádios AM se fez presente de tantas maneiras quanto se é possível.


Por quase 80 anos foi o método mais usado para transmissão via rádio. A natureza dos sinais de longo alcance marcou uma forma de se ouvir e se falar sobre o mundo. E é aqui que repousa a referência do que foi o berço para o lançamento de hoje.


Enzo Banzo (MG) revela ao mundo seu novo trabalho solo. Hoje, dia 14 de maio, podemos conferir as vibrações na íntegra de Amor de AM, álbum que chega com toda a expectativa apaixonada de seu nome.


Banzo, que já tem uma longa trajetória junto ao Porcas Borboletas, entra num tempo paralelo de produção com o novo projeto. O resultado é um gole passional e sem pressa dentre as inspirações do que tocava nos radinhos de pilha e os afetos das memórias que o mineiro carrega.


Amor de AM vem em doses que torturam numa quarentena que não se pode sofrer numa mesa de bar ouvindo o material. Sem delongas, já no pontapé da primeira faixa, experimentamos “O gole mais apaixonado da música brasileira”, onde a vida é chata até se viver as pelejas de amor e se entregar a beijos enlouquecidos de desejo nu e cru. Na poesia de Enzo mora um músico, e em suas composições perambula sem rumo um poeta à flor da pele; uma combinação afetuosa de se ter enquanto experiência material das linguagens.


Foto por Roberto Chacur

Assim, ao tomar forma, nos deparamos com sinceridades de rápida identificação levanta-o-copo-e-chora quando esbarramos com trechos como “cê apareceu/ como diz o Wander: daí fudeu”, casando em harmonia com “como sabe o Wando: me amou no chão/ me beijou na boca/ me deixou tão louco”. “O gole mais apaixonado da música brasileira”, de cara, me faz assentir da certeza de que já bebemos por alguém (alguéns, vá lá!) a noite inteira, cantando com olhos marejados, chorando com trilha sonora. Um brinde à ela, aquela maldita maravilhosa!


De odes às modas de viola a dedilhados vanguardistas, do pop ao brega, é possível encontrar todo tipo de elemento construindo a base sonora do álbum. Já pudemos ter uma noção do que viria com os singles que antecederam o lançamento do disco, as faixas “Burrice de Amor” e “Olhando Longe”, e, ainda assim, o embalo traz suas surpresas e licenças poéticas sem aviso prévio.


“Lá em casa ia-se do Caetano da minha mãe ao Tonico e Tinoco do meu pai”, declarou Enzo, referindo à sua própria experimentação musical quando estava crescendo. Natural do interior de Minas, contou que também ouvia muito o que passava na TV, muito rock dos anos 80, além da presença da viola caipira de um primo que tocava quando se reuniam na roça.

Tantas texturas conseguem desenhar um pouco do pano de fundo que podemos experimentar hoje no processo criativo de Enzo, que leva com as mãos leves a música popular brasileira para dançar coladinho a dois.


Parte do que seduz e convida nas composições é a poesia da intimidade, aquela coisa sem nome que um rádio ligado provocava: a de criar um ambiente no cotidiano para pensar a vida através dos amores, das impressões sensoriais. Aquela sensação de que sua história mais pessoal estava sendo contada nas músicas que rodavam na transmissão, sabe?


A ambientação das rádios AM casa com os lugares em que ele não parava de tocar, com a programação das músicas românticas que viram trilha cotidiana. “Embriagados de Amor”, além de se portar como nome da quinta faixa, acaba por definir um estado de espírito que todo mundo acaba encontrando em algum momento. Beber e sentir saudade de alguém? “Será que a gente é mais verdadeiro bêbado, eu não sei”: o trecho cantado por Enzo quase que num bolero vocal traduz na bruta o bicho sentimental que nos habita e sai ao mundo alguns goles mais tarde.


Tem uma beleza familiar nisso de entrar em contato com as temperaturas do que sentimos no decorrer do caminho pelas pessoas que nos apaixonamos, o quanto sofremos e o quanto isso vira uma história particular compartilhada. Faça o teste. Sintoniza em “As canções que não fiz pra você” e desce sem medo por essa marginal. Vai ouvindo na voz de Banzo sobre não esconder mais nada dos cantos não ditos que guardamos, e que uma hora sai: “não tenho juras de amor/ nem crimes pra confessar”. Se for dos tragos, já arrume um fogo e puxe lentamente enquanto a balada triste vai cantando que “eu vou dizer mas aviso/ é mentira/ eu vou mentir pra não te enganar”.

Foto por Roberto Chacur

Rádios AM banham o que há de mais popular: a música, o rasgo romântico e sincero de um sujeito apaixonado, o amor universal e sensível à pele, as histórias inevitáveis. O novo trabalho de Enzo Banzo, tendo nadado nesse rio, não poderia ser diferente, e brinda à todas essas conexões simples de acompanhar numa dança lenta e à meia luz. São 9 faixas que causam calor sentimental e identificação afetiva.

Até sonoramente o álbum se declara.


Pranto, prazer, paixão. Vê-se de tudo, e se ouve também. Amor de AM é o copo na mão e a cantoria alta de quem anda por aí. Quem viveu, viu. E quem viu sabe: sentimento é mato.


A essência dos sinais que alcançam longe banhou também o modo como o álbum foi construído. A produção musical ficou por conta de Saulo Duarte, que é paraense e trouxe muito de suas referências para o projeto. Produção essa que foi feita na casa de Victor Bluhm, cearense, e que cuidou da bateria. O processo criativo teve um pedaço de cada lugar que vieram os envolvidos. O disco vem ao mundo via selo Matraca Records (YB Music).


Nas palavras do próprio Enzo, o álbum é “um gesto-brinde contra o medo de amar”, lembrando que para amar é preciso ter coragem. Haja peito e copo pro alto! A obra vem também com uma proposta de apoio, segundo o músico. “Não por acaso, tudo que é da cultura virou alvo de quem odeia a vida. Nos querem mudos. Tudo é tão triste, mas é preciso cantar. Cantar o amor, forma superior da vida. Cantar o humor, a leveza da existência”, pontuou Enzo Banzo sobre o material.

Deixa tomar conta os embalos de um Amor de AM e conheça agora o novo trabalho de Enzo Banzo. E já fica o aviso: a vontade de beber numa mesinha de ferro de um bar qualquer vem. E com tudo.


OUÇA AGORA:
















FICHA TÉCNICA:

Criação e interpretação: Enzo Banzo

Produção musical: Saulo Duarte


Compositores: Enzo Banzo, Danislau, André Mourão, Gustavo Galo, Diego Mascate

Instrumentistas: Saulo Duarte, Enzo Banzo, Victor Bluhm, João Leão, Nath Calan

Vocais: Nath Calan, Malu Maria

Participação especial: Diego Mascate


Gravação, mixagem e masterização: Pedro Vinci e Fernando Rischbieter nos estúdios YB Music e Matraca Records - São Paulo/SP

(voz de Diego Mascate gravada por Rafael Vaz no estúdio Casa Verde - Uberlândia/MG)

Programação visual: Binho Miranda

Fotografia: Roberto Chacur

Direção de cena: Fernando Barcellos

Lançamento: Matraca Records / YB Music


Incentivo: Programa Municipal de Incentivo à Cultura (PMIC - Uberlândia-MG)