Um dia de chuva fina somente meu: VITA (SP) estreia com novo EP e clipe

O artista traz uma experiência de sofisticada contemplação sem seu projeto solo



Permita-se o mergulho. Cá estamos em 1967. Ano instalado num período de intensas transições e eventualidades mundiais no que diz respeito à cultura, à política, às artes, à ideia de comunidade e sociedade.

Século 20, 1967. O cruzeiro novo começaria a entrar em circulação. A temerosa Lei de Segurança Nacional entrava em vigor. A Lei de Imprensa era sancionada pelo então presidente Castelo Branco, regendo a censura como norma de operação nas emissoras e redações. O presidente vigente no primeiro período da Ditadura Militar viria a falecer no mesmo ano, num acidente aéreo no Ceará.

Belle de Jour estreou nas salas de cinema, com uma jovem Catherine Deneuve deslumbrantemente dirigida por Luis Buñuel. Terra em Transe perdia o Festival de Cannes para o Blow-up, com engajada trilha sonora do jazz de Herbie Hancock e o blues-frenesi dos Yardbirds. Fundada e idealizada por um jovem de 21 anos, saía a primeira edição da Rolling Stone: um editorial da contracultura em mãos. Sexo, drogas e rock'n'roll no auge da alcunha.


O Verão do Amor vinha sendo alimentado enquanto fenômeno com o ápice do Human Be-In, evento em janeiro de 67 na transcendental São Francisco da era hippie. Entre palestras e apresentações com bandas nível Jefferson Airplane e Grateful Dead, mais de 20 mil pessoas se reuniram no vasto Golden Gate Park para fortalecer o grito da juventude e da contracultura: empoderamento pessoal dos sujeitos, consciência ecológica, vivência comunal, aceitação e conscientização dos benefícios do uso de drogas psicodélicas e por aí vai.

Foi nessa época que o revolucionário Timothy Leary mandou a frase que marcou a era hippie: “turn on, tune in, drop out!” (algo livremente traduzido como: se ligue, sintonize, caia fora!). Os Beatles se preparavam para lançar o pontual Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, assim como o Are You Experienced?, de Jimi Hendrix e os cabulosos. Che Guevara e companheiros eram capturados na Bolívia. Nasciam Marisa Monte, Marcelo D2, Kurt Cobain. Morria Guimarães Rosa quase ao final do ano de 1967.

O ano de 1967, viajante do outro lado da tela, não é para qualquer um.


O artista VITA acaba de lançar hoje seu trabalho de estreia solo. O EP 1967 se transforma em imersão reflexiva já na primeira faixa, com título homônimo. Além dela, são mais três canções pensadas a partir do próprio pensar, construídas de forma a se desmontar nas ideias quando nos atravessa.

A delicada presença no EP de VITA fica por conta das perguntas levantadas, da falta de pressa e atenção ao fluxo presente que se pode perceber nota a nota. Estão em toda parte e detalhe, essas sutis performances de elegantes traços de autoria, marcada pela contemplação diante da passagem do tempo, dos tropeços dos pés, do respeito à morte e a abundância possível da vida, dos efeitos dos fatos num sujeito, numa forma de ser.

Eu, que faço do café e fumacê o casamento inabalável para dançar com as ideias, pude experimentar uma calma que já buscava há algum tempo sem acertar o passo (ah, esse combo 2020-2021 abalando tudo o que respira…). O trabalho solo de VITA proporciona um intervalo suspenso que desfaz as amarras do cotidiano para que possamos vagar: por dentro, por nós mesmos, através do(s) outro(s), das questões inevitáveis, vagar pela própria proposta de não ficar sempre no mesmo lugar.

Até nossa ideia de paz precisa de movimento para existir, nossa angústia, nossas indagações que não saem pela voz. VITA arquitetou aqui, em seu protagonismo de estreia, a extensão de um momento de contemplação aguda, convidando ao mergulho sem medo. Ou, se há medo, que isso não impeça de avançar em nós mesmos.

São em trechos como “o medo de ver o corpo cair/ atrapalha a morte chegar” que nos sentimos abraçados por inteiro, enquanto pessoas que se entendem a partir e além das próprias vulnerabilidades. “A impaciência abraçou meu peito pelo excesso de ar”: só o suspiro dá conta pra seguir junto.

Joca Vita é um artista paulista com muita história pra contar. Ativo na música desde os anos 80, já fundou a banda Motormama, na qual foi baixista, projeto com o qual se apresentaram no Primavera Sound. Atualmente parte do duo de garagem Justu, VITA se expande para um tempo paralelo de produção com o avanço solo.

O EP 1967 pontua no nome o ano de nascimento do artista, que veio ao mundo exatamente no dia de hoje, 23 de junho. Lançamento cabalístico? Pode até ser, sou sujeita suspeita quando o assunto é ritualizar o que é corriqueiro. Ao meu ver, um mergulho como esse merecia todos os encontros que criou numericamente na data presente.


E, como se não bastasse, VITA é o aniversariante que deixa o presente para os convidados da festa curtirem. Junto da estreia do EP na íntegra, saiu também o clipe de uma das faixas. Lançamento ligeiro faz assim: “Incapaz” é a música que fecha o trabalho e já tem sua assinatura visual.

Produzido pelo próprio artista e captação de Guga Loures, o filme em preto e branco é outro mergulho à parte. Dessa vez, pelas palavras do músico que vão tomando as figuras de linguagem para si, transportando através das imagens para uma ideia viva das limitações tantas a que estamos sujeitos. O auge (pessoalmente falando, vá lá) é o contorno num jogo de luzes que a câmera faz ao redor do rosto do artista. Simbólico gesto em cena.

O EP está disponível pelo Bandcamp (logo mais também em outras plataformas). O clipe oficial de “Incapaz” você pode conferir pelo YouTube - salvo o aviso que a vontade de uns tragos vem. Na coluna sobre novidades audiovisuais do Cena dessa semana vamos falar mais do filme da faixa.

Conheçam o trabalho solo de VITA com o EP 1967. Com a cereja gostosa do bolo que é esse clipe, claro.

Feliz aniversário, VITA! Obrigada pelos presentes.


OUÇA AGORA "1967" NO BANDCAMP:


FICHA TÉCNICA - EP 1967:

Composição, arranjo e interpretação: VITA

Produção musical: VITA e Na Banguela

Gravação: Na Banguela

Mix e Master: João Lucas Monteiro

Arte da Capa: Joca Vita

Selo: Cena Cerrado Brasil



FICHA TÉCNICA - INCAPAZ (CLIPE OFICIAL):

Roteiro e atuação: Joca Vita

Direção e produção: Joca Vita

Captação: Guga Loures

Edição e colagens: Joca Vita