#COLUNAS/FICHA TÉCNICA: A TV Canguru de 14 polegadas

A tropa de elite despertou no celular do trabalhador. O raiar do Sol canta feito cocoricó no meio de uma selva de pedras. Tem jogo do Brasil mais tarde. Neymar, Coutinho e Jesus em plena altitude bolivarianista. Quem sabe a imensidão boliviana do Salar de Uyuni inspire o trio parada dura de 2018. Boas novas, para quem foi castigado pela natureza no México, metralhado pelo terror nos EUA, ou surpreendido pelas pedras da vida em General Severiano - Roger, tu tens todos nós. É quinta-feira útil. Dia de jogo, de seleção brasileira. Patrimônio imaterial do povo. Hoje é o assunto de amanhã.

Pesquisas comprovam que um jogo da seleção brasileira bem jogado seria o favorito número 1 ao prêmio de melhor terapia ocupacional pela Sociedade Brasileira de Psicologia. Tudo em apenas 90 minutos. Tenho, porém, uma ressalva. Se esse é o melhor remédio para insanos como nós, qual era o nosso problema em junho de 2002? Por qual motivo torcíamos tanto, inquietos e tagarelantes, como se não houvesse amanhã?

Pode acontecer o que for. O mundo girar, o Temer cair, o dólar subir, o Bolsonaro sumir e até o padre do balão aparecer, mas poucas coisas são tão mágicas quanto uma Copa do Mundo. Era ela que estava lá, em junho de 2002, ao vivo na TV Canguru de 14 polegadas, direto do Japão e da Coreia do Sul. Desprovido de limites, varei aquela noite no quarto do meu tio, ausente no dia, para ver a abertura.

França e Senegal abririam o torneio ainda antes do amanhecer, e Papa Bouba Diop surpreenderia a geração raiz francesa de Barthez, Thuram, Desailly, Lizarazu, Djorkaeff, Petit, Henry, Trezeguet, Wiltord e tantos outros. Zidane ainda estava machucado. Assisti aquele jogo com permissão unânime de mim mesmo, e dali resisti por outras 31 madrugadas.

Voltando à seleção brasileira e suas memórias em tempos de chuva. Apenas Ronaldo e Rivaldo garantiram, juntos, quatro anos de cura gratuita aos raivosos brasileiros de 2002. Não menos memorável foi a companhia insubstituível em frente à TV Canguru de 14 polegadas. Era a primeira e última vez em que comemoraria ao lado do meu velho e invisível. Se um jogo fosse de manhã, sabia que o seu Divino estaria ao meu lado, com riso difícil e alegria no olhar. Outro dia, deparei-me com a mesma televisão e todas essas recordações saltaram-me novamente os olhos. Saudosismo é ainda mais forte quando ninguém mais viu. Hoje, terei ao menos o jogo do Brasil.