#COLUNAS/FICHA TÉCNICA: Não, porque nem sempre

Cada desafio é uma história. Em time que está ganhando, também se mexe. Não é de hashtags que se vive a vida e nem tudo que reluz é ouro, nem o garimpo. Das lições que permeiam meu imaginário no já virginiano 2017, algumas dispensariam facilmente qualquer mistério. O padrão Fifa, na verdade, carecia de legado. Rio 2016, todavia, foi conquistado num balcão de negócios, e não se fala de elefante branco sem olhar para o nosso querido vizinho, Ginásio Poliesportivo de Araguari. Pois bem, tem coisas que nunca mudaram.

O ano era 2004. O Rio fervia feito a ainda sobrevivente geral do Maracanã. Nas Laranjeiras, Romário usava e abusava das regalias. Com seu aval, o Fluminense trouxe Ramon do Japão, Roger Flores do Benfica, de Portugal, Leonardo Moura de São Paulo e até seu desafeto Edmundo, que abandonou Valdir Bigode no comando de ataque do Vasco. Por sinal, os cruzmaltinos levaram a pior na final do carioca para o Flamengo, cuja safra peculiar era personificada por Jean e Negreiros, e sustentada pelo atual campeão brasileiro Zinho, o carioca Felipe e o goleiro Júlio Cesar, ganhando vaga de titular na histórica Copa América pela seleção. Quem parecia capengar mesmo das pernas era a turma de General Severiano.

Domados por Paulo Bonamigo, os personagens do esquadrão alvinegro chegaram a vencer o atual campeão Cruzeiro. Túlio, Valdo, ex-PSG, o jovem goleiro Jefferson, de 21 anos, Jorginho Paulista e o experiente Fernando, revelado pelo Uberlândia Esporte, eram alguns nomes daquela legião de atletas. No entanto, tropeços diante do Juventude, do menino Thiago Silva, de 19 anos, para o Figueirense, das revelações laterais Filipe Luís e André Santos, e para o Coritiba, do zagueiro Miranda, ameaçavam colocar tudo a perder. Não fosse o empate com o poderoso Atlético Paranaense, vice-campeão brasileiro daquele ano e da Libertadores anos depois, o inverno daquele ano seria mais castigável. Nem o coração valente Washington, autor de 34 gols, passou naquela rodada derradeira. Por um ponto, a equipe escapava do rebaixamento, que derrubava o Grêmio do extinto e último décimo quarto andar.

A sapatada de cinco gols do campeão Santos, que se erguia com Robinho, Renato, Elano e Basílio após a saída de Diego para o campeão europeu Porto, doeu no tricolor gaúcho. Era o prenúncio para aquilo que esperava o time ao fim de 2004. Tavarelli, goleiro da seleção paraguaia, Felipe Melo e Cláudio Pitbull não conseguiram segurar. Pelo contrário, revés como para o também rebaixado Vitória, dos pentacampeões Vampeta e Edilson 'Capetinha', e para o Guarani, de Paulo André e Viola, somente afundaram mais ainda o lado azul de Porto Alegre. No ano em que um irlandês tentou atrasar o sonho do maratonista Vanderlei Cordeiro, Barrichello faturou o vice da Fórmula 1 e Nazaré Tedesco levou a pior contra Maria do Carmo em Senhora do Destino, Grêmio e Botafogo careciam de motivos para sorrir.

Treze anos depois de uma das suas piores temporadas, os times se recuperam com credenciais intercontinentais nas quartas de final da Libertadores. A engrenagem engenhosa de Jair Ventura dispensa qualquer contestação da sua postura com as peças à disposição do alvinegro carioca. Variações táticas não se resumem a números, assim como mostra Renato Gaúcho à frente do Grêmio. Tratam-se de alternativas que um time pode oferecer em campo, e isso também envolve alma, não apenas marcação pressão, recomposição, triangulações pelos flancos, versatilidade, preenchimento e defesa sólida.

Nesta quarta-feira, 13, as duas agremiações medem forças no estádio Nilton Santos. O principal desafio de ambos em 2017, o assunto mais citado em cada coletiva, reunião e gestão de crise pós-derrotas na temporada. Enquanto o pessoal de General Severiano simpatiza pelos resultados alcançados com pouca munição, os gaúchos encantam com o arsenal de possibilidades que podem apresentar, além do possível reforço do principal personagem da mega produção "A Volta dos Que Não Foram", Luan, ainda dúvida para a noite. Se toda essa reconstrução depois do inverno sombrio de tempos anteriores permitirá que alguns desses guerrilheiros de pequenas viagens se tornem protagonistas no cenário continental, faço minhas as palavras ditas um dia por um brasileiro de longas expedições, Rodrigo Amarante - Não porque nem sempre.