Quem é que não precisa de Músicas Para Ouvir Chorando Enquanto Escorrega de Costas na Porta?

Ato 1, Provocação: Sombrio da Silva (DF) lança seu segundo trabalho solo


A meditação é provocativa. Existe um tipo de mergulho do inconsciente que provoca volumosas ondas na matéria física, aqui fora. Continuamos seguindo na resolução do que nos move e do que nos paralisa. Na linha tênue de repousar no confortável e escapulir para fora da margem cerceadora, a morada do incessante imprevisível. O que nos espera ao dobrar a esquina? Do que falam as sombras ao redor?


Sombrio da Silva é artista de Brasília, há anos na música. “Comecei com 11 anos na banda do colégio militar”, conta em entrevista. “Lá aprendi a ler partitura, tirar um som do clarinete e principalmente a não respeitar autoridade idiota só porque é autoridade”. Saindo de lá, o músico teve convívio direto com as artes cênicas junto a um grupo da Universidade de Brasília, onde teve a oportunidade de tocar em peças e fazer a trilha de alguns filmes underground.


No entanto, há algum tempo seu trabalho está ligado a grupos musicais. E além de não andar só também não anda mal acompanhado. Puta Romântica, Satanique Samba Trio, Cigarras, Orquestra Quimera, Kervansarai e Joe Silhueta são alguns dos projetos e bandas que Sombrio faz parte.

Foto: Divulgação/Acervo

Agora, em março de 2021, o artista brasiliense lança seu segundo trabalho solo. O emblemático Músicas Para Ouvir Chorando Enquanto Escorrega de Costas na Porta já é um convite inevitável aos curiosos e aflitos a começar pelo nome. Quando pergunto a Sombrio em entrevista em qual lugar alojaria o gênero da obra, o artista se esquiva. E com ponderada razão.


O álbum mescla tantas referências de contraste que é temeroso acomodá-lo num só lugar. Uma valiosa atração do seu conteúdo: não saber o que esperar não só a cada faixa, mas até mesmo dentro de uma mesma música. Sombras não são formas definidas: viram vapor daquilo que podem ser


Dentre as várias temperaturas possíveis de se encontrar no álbum, podemos destacar a influência do noise, do bossacore e do tão recentemente cunhado hyperpop. No fim das contas, um mero semi norte de uma estrada agitada e cheia de curvas que não apareceriam em nenhum GPS. MPOCEEdCnP (para os íntimos) supera o senso de direção. Sua narrativa compete com o alvoroço do trânsito de pensamentos, desenhando em sons uma verdadeira babel de sinapses em transe. Aliás, essa é uma chamada forte no álbum: a serena continuidade de um estado de transe.


Em MPOCEEdCnP, encontramos meditações e pausas pro café - números 2, 5, 7, 3 e 1, numa bela e corrompida (des)sequência. Os arranjos de Sombrio desarranjam quem os ouve, trombando o público consigo mesmo, apenas para remontá-lo em alguma encenação de calmaria, seja no piano ou na pausa. Faixas como “2020 vai ser um ano maneiro” e “Vai ficar tudo bem, menos o que não vai ficar bem” criam autênticas trilhas de um caótico cenário real no universo performático de Sombrio.


“Essa noite eu sonhei que era o Chaves no episódio do ladrãozinho” chama a atenção. Não só pela aparição do trabalho vocal do artista, mas também pela regência dos arranjos. É uma faixa que merece ser degustada sem nada que nos segure no chão diante da oportunidade de pleno voo. Há alguma coisa cinematográfica, de fato cênica, na escrita sonora de Sombrio, e aqui tal sensação atinge seu cume.

O que ouvimos, passamos a ver. O que está em som vira imagem por trás da retina. E o melhor? Termina tudo numa grande salsa bolerística melancólica, eletrônica e malemolente. Afinal, o melhor do filme é não ter como prever como termina, certo?


Quando pergunto sobre o tema que ronda a criação do álbum, Sombrio conta que é sobre o erro - a vitória e o sucesso do erro, mas também a decepção a partir dele. “Errar é divertido., mas também dói, é ridículo e vergonhoso. Tanto Xablaus quanto o MPOCEEdCnP são monumentos à glória inefável do fracasso”, comenta o músico.


Xablaus é o primeiro álbum solo de Sombrio, de 2020. Sua definição é quase própria, sendo um compilado coerente de músicas que performam um “surto dissociativo”, segundo a visão de Sombrio; um experimento musical psicótico. O novo álbum teria uma parentesco com seu antecessor, ainda que em afastado grau. MPOCEEdCnP promete uma loucura ensaiada, mais melancólica, com maior contato com o aspecto frágil da nossa atual realidade.


O nicho sonoro em que habita Sombrio é cênico, e o novo álbum veio para ser mais uma demonstração disso. A performance é grande parte disso, da maneira que o artista pensa suas músicas à forma como vive sua arte.


A produção do disco foi feita em casa entre abril de 2020 e fevereiro de 2021. A maior parte foi realizada por Sombrio. As pontuais gravações fora de casa aconteceram no estúdio limacruz, em Brasília, onde foram trabalhadas as performances vocais e de clarinete de Sombrio, e também as percussões de Thiago DeLimaCruz. Houve também a participação de Mar Nóbrega e Tom Suassuna de suas respectivas casas.

Além das percussões da faixa “Essa noite eu sonhei que era o Chaves no episódio do ladrãozinho”, Thiago DeLimaCruz assina a letra de “Só restou depois”. Mar Nóbrega ainda tocou violoncelo na mesma música, e Tom Suassuna também entrou com violino e rabeca para a faixa. Sombrio cuidou de toda a produção, assim como a mixagem (com exceção de uma faixa, que trabalhou junto com Ramiro Galas). Quem cuidou da masterização foi Jota Dale e a assinatura da arte de capa é de Capreta.

Para quem já acompanha o trabalho de Sombrio, a experiência do novo álbum vai ser uma verdadeira degustação. E para quem vai conhecer o artista a partir de agora, o momento vai ser um inevitável convite à provocação dos sentidos.

Dêem o play na primeira faixa, a lúdica “Aquela música que eu fiz em 2012 no seu quarto com o seu violão velho enquanto você estudava”, e se deixem levar pela penumbra do que os espera a cada som. Vale cada pedaço de tempo e compasso.


Breves recortes do papo com Sombrio da Silva:



Como surgiu a ideia do álbum?

A ideia surgiu em 2020, enquanto eu produzia o Xablaus e a quarentena me obrigava a criar algo menos psicótico e mais melancólico. O maior tema acredito que ainda é o mesmo do Xablaus: a vitória e o sucesso do erro. Mas é inevitável chorar enquanto escorrega de costas na porta quando se é um fracassado, por mais que se invente todo esse papinho mole aí pra justificar a paixão pela derrota. O MPOCEEdCnP é o irmão triste do Xablaus, só que debochado também.

Conta sobre quando soltou seu primeiro projeto solo, o Xablaus.


Faz alguns anos que o Munha, do Satanique Samba Trio, martela na minha cabeça que eu devia fazer um trabalho solo. Eu já tinha vários rascunhos engavetados e ficava sempre dando prioridade para trabalhos dos outros, deixando isso para depois. Daí em janeiro de 2020 resgatei meia dúzia de rascunhos e decidi que era hora de lançar. Comecei com Xablau nº 0, que era um noise tosco que tinha feito com uns 15 anos de idade, por aí. Fui resgatando outros engavetados, fazendo coisas novas e jogando em Youtube, Instagram. Daí veio o Munha, “ou, junta todos os xablaus e faz um álbum”. Ele acabou me convencendo e deu super certo. Quando as músicas subiam no Instagram ninguém dava bola. Quando fiz capa e chamei de álbum, as pessoas descobriram que eu estava fazendo alguma coisa. (risos) Ah, no meio disso tudo teve a pandemia, né… No início da quarentena, inventei o Show do Sombrio da Silva pra não surtar. Fiz umas coisas especificamente pro show também, que talvez virem álbum um dia, ou não. Nesse tempo também comecei a fazer uma série de sons que chamei de meditações, e que eventualmente viraria o MPOCEEdCnP.


E da inspiração do seu trabalho em relação ao estilo musical? De quais fontes costuma beber bastante?


De todos os gêneros que deram errado. Todos os gêneros que existiram por duas ou três músicas e foram abandonados antes de virar um álbum.

A performance é um traço que marca muito sua arte. Como ela funciona pra você?

Tô desde dezembro em crise com minha performatividade. Não sei muito pra onde ir. Mas a coisa da performance é herança da época que me envolvi com cênicas. Principalmente com o Cantigas Boleráveis, banda que surgiu numa matéria de direção na cênicas. Era uma peça que depois virou banda; e hoje a chefa do Cantigas lidera o Puta Romântica.

Me conta uma coisa sobre Sombrio da Silva.


Eu sou uma farsa.



Confira o novo álbum de Sombrio da Silva:









Ficha Técnica:

Produção, mixagem: Sombrio da Silva

Masterização: Jota Dale

Arte de capa: Capreta

Bombo leguero, bongo, congas, cowbell, maracas e timbales faixa 5: Thiago DeLimaCruz

Mixagem faixa 5: Sombrio da Silva e Ramiro Galas

Letra faixa 11: Thiago DeLimaCruz

Violino e rabeca faixa 11: Tom Suassuna

Violoncelo faixa 11: Mar Nóbrega