Sobre os homens de bem de ninguém: Joe Silhueta lança o single Tropicalipse

Numa postura simbólica de confronto histórico, o grupo brasiliense traz reflexão no novo lançamento



“Aviso a quem nessa terra se acha um homem de bem: é tão pesada essa nuvem pairando sobre vocês”!


Repousa aqui uma ideia sólida: todo som é narrativo. A potência bruta da soma de melodias pensadas, escolhidas e elaboradas se realiza porque nessa composição se é possível dizer alguma coisa de algum lugar. De quantas maneiras é possível encontrar a história de um tempo numa música? A música que, de tantas formas, é uma posição estética diante daquilo que se vive, vê e sente.


Quem vem vindo lá longe aqui perto, com uma história nas mãos? A trupe de um cerrado pulsante feito de expressão, poesia de confronto e abismos políticos. Joe Silhueta (DF) segue pavimentando o caminho para a chegada de seu próximo álbum e apresenta ao mundo seu novo single: “Tropicalipse”.


Nos preparativos finais para lançamento do disco Sobre saltos y outras quedas, o novo single performa um poema do vocalista Guilherme Cobelo. Aqui, somos convidados a repensar o que conhecemos por “História oficial” e as figuras ditas heróicas protegidas pela mesma. Lembram da estátua de Borba Gato ardendo em chamas na avenida Santo Amaro em São Paulo? Em meio ao protesto do final de julho, pudemos experienciar de relance geográfico indireto a necessidade de uma pergunta fatídica: o que escolhemos homenagear em nossas ruas e por quê? Quem decide o teor de nossos símbolos?


Os bandeirantes, como Borba Gato, são ditos responsáveis por expandir as fronteiras do Brasil ao formato como conhecemos hoje. Como? Em infindas viagens no território sulamericano buscando ouro, prata, destruindo quilombos e aldeias, escravizando povos indígenas, sequestrando mulheres e crianças. Saqueavam o que podiam, tomavam o que queriam - a violência como ferramenta de trabalho.


Na justificativa de exaltar aqueles que teriam impulsionado uma “unidade nacional”, a figura do bandeirante passou a ser versada com relevância histórica a partir da década de 30. Depois de tanto tempo no esquecimento, resgataram esses sujeitos para que ocupassem um suposto lugar de heroísmo e pioneirismo no imaginário nacional. Pra quê? Pra quem? Sustentando qual discurso?

“Tropicalipse” entoa sobre uma reflexão dessa jornada de terror nas terras brasileiras. Dos navegantes aos bandeirantes, dos sertanistas coloniais aos atuais “homens de bem”: os protagonistas das mais violentas atuações ganham molduras de ouro nas salas em que tudo se decide. “Tropicalipse” guarda em seus versos aquele parentesco religioso que habita o discurso de cada um deles: “em pleno estado de graça/ maravilhosa/ cativa/ quem vem pra colonizá-la em nome de Deus - amém”.



Melodicamente construída ao léu da correnteza pesada de um rio, o novo single da Joe Silhueta se banha de referências distintas da música brasileira para cantar sobre as tenebrosas decisões da nossa História oficial. Não se engane, não, que nesse rio corre sangue. A descarga sonora do single parece flertar com a temperatura das produções do Udigrudi - dá-lhe Lula, Alceu, Notaro e alguma-coisa-impreterível de A Peleja do Diabo com o Dono do Céu.


“Quem não se esquece bem sabe de tudo o que você fez”, cantam as vozes de Cobelo e Gaivota Naves, “quando espalhou pesadelos com peste, missa e fuzis”. É num tom de argumento lírico de crescente repulsa que a faixa constrói sua estética de enfrentamento. Nessa reflexão poética sobre nosso circo nacional de horrores, repousa o convite ao questionamento. A quem devemos nossas sinceras homenagens, o destino de nossas odes, monumentos, estátuas, nomes de praças públicas, as páginas centrais dos livros de História?


Joe Silhueta não é estreante na arte de cutucar as feridas necessárias, inclusive as institucionais e históricas. Em “Tropicalipse” isso fica bem visível, da forma como as vozes somam em marcha ao violão à cólera sã dos versos. No final de tantas das contas, a poesia, a música, a arte no geral tem de ocupar esse lugar de maldizer e contestar a barbárie e injustiças naturalizadas por nossa memória coletiva.



Foto por Thaís Mallon / Divulgação

A tropicalipística capa é assinada por Alexandre Lindenberg. A gravação aconteceu nos estúdios Zero Neutro e Lima Cruz, em Brasília. Gustavo Halfeld e Jota Dale assinam a produção musical. A banda é atualmente composta por Guilherme Cobelo (voz e violão), Gaivota Naves (voz), Sombrio da Silva (clarinetes, sanfona e synth), Marcelo Moura (baixo e voz), Carlos Beleza (guitarra e voz), Márlon Tugdual (bateria) e Tarso Jones (teclado).



OUÇA AGORA "TROPICALIPSE":


FICHA TÉCNICA


Gravado nos estúdios Zero Neutro e Lima Cruz

Produção musical: Gustavo Halfeld e Jota Dale

Produção Executiva: Tâmara Habka

Engenheiro de som: Dan Felix

Assistentes: Marcel Papa e Pedro Alex

Mixagem: Gustavo Halfeld e Jota Dale

Masterização: Bruno Giorgi

Composição: Guilherme Cobelo

Vozes: Guilherme Cobelo, Gaivota Naves e Marcelo Moura

Violão: Guilherme Cobelo

Baixo: Marcelo Moura

Guitarras: Carlos Beleza

Percussão: Mariano Tonniati e Victor Valentim

Synth: Guilherme Cobelo

Arte: Alexandre Lindenberg (Estúdio Margem)