Sobre quem não veio e nem está a caminho: Enzo Banzo e o lançamento do clipe de “Estômago”



Indigestão mora longe das doses únicas de desassossego - vem em picos e parcelada. No fim das contas, o que é mais passional: o que bate no peito ou o que desaba na estômago? Como se dá nome ao ponto de encontro de um coração indigesto de inquieta frustração?


No triângulo mineiro existe um poeta que canta. É em sua carreira solo que Enzo Banzo (MG) tem se desdobrado em desabafo poético despencando da carne. O álbum Amor de AM levou seus ouvintes para perto da aura das transmissões companheiras, elevando o que há de mais latente nas vidas distanciadas pela quarentena: a presença e permanência do outro. A necessidade que não cala.


Amor de AM é uma obra digna de ser desfrutada em fartos e demorados goles, sem pressa no que atinge e faz sentir. Enzo entrega para além das distâncias e pinta com o bolero, o desejo, o brega, o romântico, o morador de copo sujo, a dor de cotovelo, o visitante das noites e adoecido de amor. Aqui, o artista retrata em elegantes traços de som e letra a beleza imediata e a amargura ensandecida do que nos conecta à uma história (ou várias). O trabalho autoral merece a estante das músicas que habitam as esquinas dos sussurros e silêncios das 4 da manhã.


Seu novo lançamento vem tecer o que pedia forma física do que já tinha provocado em ondas. “Estômago” é o primeiro clipe do álbum e estreia dia 24 de Novembro. A faixa se compõe da cirúrgica direção das vias do trajeto interrompido dos amantes, e a frustração compartilhada agora é uma experiência audiovisual. A produção audiovisual de “Estômago” tem apoio do Programa Municipal de Incentivo à Cultura - PMIC do município de Uberlândia (MG).


Com a produção assinada pela Panamá Filmes, o roteiro conduz para embriagar com a mesma eficiência furiosa da dose mais forte tomada às pressas. A presença de Enzo fuzilando com os olhos através da tela nos faz querer fazer coro ao veredito: “meu coração é meu estômago”. A espera por quem não vem para o encontro marcado atinge em outro nível, com anel de compromisso na mão e o semblante da incredulidade dolorida, engatando-nos com nó na garganta através daquela "intolerância queimando à carência”.


A gastrite personificada naquela que não veio e que não vem. Quem nunca viu esse filme, seja protagonista ou meramente na figuração das ocasiões, que vire o primeiro copo.

Ausência é um prato que se come frio - e engolindo seco. O filme de “Estômago” gentilmente veio fazer companhia às memórias mais desejantes e malditas dentre um mar de tanto querer. O tira gosto à parte fica por conta da especial presença a dois da artista Nath Calan e de Danislau, companheiro de banda na extasiante Porcas Borboletas, num flerte cênico de precisa representação da felicidade e tesão alheio e ao redor como pano de fundo fiel à cena.

“Meu estômago não digere o desgosto”. Levanta o copo, engula seco e não olhe pra trás. “Estômago”, primeiro clipe do álbum Amor de AM do Enzo Banzo, está pairando no ar entre você e eu.


Confira a ENTREVISTA EXCLUSIVA COM ENZO BANZO, sobre o lançamento de "Estômago":


Anna F.: Salve, Enzo! O primeiro filme de Amor de AM está finalmente solto no mundo. Com isso, quero te convidar para um sobrevoo anterior. Como foi o período de construção do álbum para você?


Enzo Banzo: Olha, foi longo o sobrevoo dessa construção. Posso dizer que tem uns dez anos de ruminação. Acho que as canções mais antigas foram compostas ali por 2012, e foram sendo compostas ao longo dos anos (sem se pensar que era para um disco) em meio a composições de outros projetos. Até o ponto em que percebi que tinha um conjunto ali em mãos. Eu fiz um show em 2015 que se chamava Comédia Romântica, e nesse show já tinha várias das canções que viriam a formar o repertório de Amor de AM. Depois disso foi quando lancei meu primeiro trabalho solo, o Canção Escondida, que era uma outra ideia que vinha desenvolvendo em paralelo. Mas daí continuei compondo até que consegui apoio para o trabalho e, enfim, entrar em estúdio. Então, tem uma fase depois disso que é quando o disco começa a ser gravado, que foi em 2019. Fiquei em São Paulo para gravar com o Saulo Duarte e o Victor Bluhm, ensaiando em trio. A ideia era lançar tudo no começo de 2020, mas veio a pandemia e o disco ficou pronto, mas parado. Fiquei muito perdido, não sabia como lançar nesse contexto pandêmico porque era uma angústia muito grande da humanidade inteira, não conseguia celebrar o brinde que é esse disco. Quando veio 2021, até como um gesto de sobrevivência e resistencia, decidi que tinha que colocar no mundo logo. O lançamento aconteceu ainda no primeiro trimestre, com os primeiros singles e lyric videos. E a recepção disso tudo sem poder fazer shows e estar com as pessoas - cena que ainda está acontecendo, mas se transformando.


Sua estrada com o Porcas Borboletas é longa e frutífera, e agora outras possibilidades se escancaram com o mergulho na perspectiva solo. Qual a sensação dessa fase autoral?


O Porcas Borboletas é uma banda ainda em atividade e, acima de tudo, um grupo de amigos. É normal que com o tempo cada um vá trilhando outros caminhos. Nem todos os anseios cabem na banda, e isso é visto com tranquilidade por todo mundo. Eu venho nessa caminhada autoral assumida pelo menos desde 2014 com o lançamento do meu primeiro livro, depois com o Canção Escondida e agora com Amor de AM. E há outras tantas coisas por fazer… É diferente da banda essa coisa de você pensar sozinho, planejar e chamar os parceiros para fazer acontecer. É bem diferente do trabalho com a banda, mas são igualmente prazerosos.


O clipe de “Estômago” tá no ar e é um material que consegue dialogar diretamente com o contexto temático da música. De que maneira foi pensado o roteiro?


Eu queria fazer o clipe com o pessoal da Panamá [Filmes], com o Filipe Franco, que é meu amigo já há algum tempo. A gente já convive e se conhece, tendo feito muita coisa juntos. Tem um show nosso do Porcas, o Banheiro Químico, em que eles fazem um trabalho de projeção maravilhoso! Eu queria fazer com a Panamá porque acho que a linguagem deles captaria muito bem a ideia do amor misturado com o humor, muito presente no meu disco. Passei a ideia para o Filipe e pedi que ele escolhesse a música. Ele demorou, ficou pensando, ouvindo e ruminando, e da primeira vez que ele me disse que tinha uma ideia era com “Estômago”. O Filipe já pensava numa coisa de se estar comendo, e dessa coisa de comer ser associada ao sentimento. O roteiro foi todo pensado por ele, sempre dialogando entre a gente, claro, e foi gravado em plano-sequência. Foram uns 6 ou 7 takes. E o que é melhor é que no clipe eu viro um vinho, como um macarrão e tomo um Sonrisal. Então para cada um desses takes completos tive que fazer isso - fora os incompletos. Já pode imaginar como eu terminei. (risos) Foi muito divertido. A única filmagem feita à parte foi a cena do Danislau com a Nath Calan, que são companheiros e dois grandes artistas. Foi tudo muito ensaiado, com tudo sendo coordenado para sair na hora certa, que nem banda ensaiando para tudo se encaixar. Foi demais o processo!


A faixa tem um sentimento muito familiar que paira em suas entrelinhas, e é curioso como engaja as emoções e memórias do público. Como foi escolher a faixa para fazer o clipe?


Com o Filipe. (risos) Quando o Filipe me falou que era “Estômago”, eu fiquei muito empolgado. Justamente por isso: ela engaja as emoções e as memórias do público. É uma canção que gera um efeito de reconhecimento. Uma coisa que talvez a pessoa não pensou, não formulou, mas que reconhece imediatamente, que é sentir essas dores do coração pelo estômago - tanto pelo frio na barriga, pela azia, pela perda do apetite... Vários tipos de sintomas que o sentimento causa nessa nossa forma de sentir.


Como foi trabalhar com o pessoal da Panamá Filmes no filme inaugural do seu novo projeto solo?


Gosto muito da linguagem deles, desde antes do trabalho com o Porcas. Eles conseguem conciliar amor e humor de um jeito muito inteligente, com um acabamento de imagem bem profissional e ao mesmo tempo muito sensível, bem realizado. Foi uma delícia lidar, inclusive, com o quanto eles são amadurecidos e preparados para fazer o trabalho. Acabava um take e já estava chegando outro prato de macarrão, outro copo de sal de frutas. Uma coisa realmente organizada e, ao mesmo tempo, muito solta, muito aberta ao improviso.


Conta pra gente, Enzo: como se alivia a ânsia de vômito de um estômago sujeito ao passional?


Eu diria, pra mim, que esse alívio é possível sobretudo no mundo das canções. A música tem esse poder de entrar dentro do que a gente sente e provocar uma espécie de arrebatamento. Ela tem esse potencial de entrar pelo nosso ouvido sendo ao mesmo tempo verbal e não-verbal, inteligível e sensível, razão e sentimento. É o poder de entrar dentro da gente e aliviar, fazer se sentir mais forte. E nessa de se sentir mais forte, também faz gerar uma catarse na qual a gente se sinta realizado nessa carência eterna em que se vive.


Fica o espaço para um aconchego coletivo! Deixa pra gente um desabafo, um desejo, um trecho, uma indicação, um beijo pra alguém - qualquer afago a ser compartilhado.


Aconchego coletivo… Acho que esse é um lugar da canção desse nosso Brasil. A canção é lugar desse aconchego sem deixar de ser crítica, sem deixar de pensar. Sou apaixonado pela linguagem da canção. Pesquiso como linguagem poética e forma de realização no mundo dessa nossa expressividade, da nossa estética, da nossa humanidade. Então o meu brinde vai ao canto passional e a tudo que ele é capaz de promover na vida das pessoas. O meu desejo é que essa canção seja ouvida de coração e estômago abertos, que ela seja deglutida e transformada em sentimento. Existe a ausência no clipe do personagem para quem a amada não chega, e que essa ausência seja completada pela própria canção. Se ela vier acompanhada da pessoa amada, melhor ainda, brindemos à isso!

E falando em pessoa amada, mando todo afago para Mariana Anselmo, minha amada... Que a gente brinde junto essa canção do coração e do estômago.



CONFIRA O CLIPE DE "ESTÔMAGO", COM PREMIERE HOJE ÀS 19H:



Ficha técnica

Produção: Panamá Filmes (@canaldapanama)

Direção: Caio Mazzilli e Filipe Franco (@mazzzillli / @francofilipe)

Direção de fotografia: André Djanikian e Caio Mazzilli (@andredjanikian)

Assistente de fotografia/ Foquista: Giuliana Eira (@giulianaeira)

Direção de Arte e figurino: Thany Sanches (@thanysanches)

Camisa Enzo Banzo: (@caiodiascamisaria)

Aliança: (@macchi_________)

Participações: Caio Gentil, Danislau e Nath Calan (@caiogentilcarvalho / @danislautb / @nathcalan)



Sobre a Panamá Filmes


A produtora audiovisual Panamá Filmes foi fundada por Filipe Franco e Caio Mazzilli em 2014 na cidade de São Paulo, atuando na produção de documentários, videoclipes e filmes publicitários. Em 2017 e 2018 foi contemplada pelo Prêmio Multishow com “Não Espero Mais”, da banda O Terno, e “Tu”, da artista Tulipa Ruiz.

Realizou recentemente o festival Rec-Beat 2021, produção pernambucana que contou com performances de dança, música e poesia trazendo nomes como Mateus Aleluia, Céu, Spokfrevo Orquestra, O Terno, Ilu Obá de Min, Luiza Lian, MC Troia e Getúlio Abelha.