COLUNAS/Do Blues à Política: o famoso 'furo no olho'.

 

 

 Que legal! Eu posso escrever o que eu quiser… Ninguém vai ler! Uhul! Brincadeira.

 

E aí? Tudo supimpa? (supimpa é uma gíria de tiozão). Beleza? Então. Faz tempo que eu não escrevo na Cena Cerrado. Estava esperando as coisas ficarem um pouco mais estáveis. Aqui me proponho a falar sobre política. E hoje não está fácil falar sobre isso sem ofender ou causar algum dano ao próximo ou a mim mesmo. Mas nos últimos dias, li muitos amigos falando sobre o famoso “Furo no Olho", gíria usada quando um músico se propõe a atravessar o trampo de um colega, seja abaixando o preço do seu cachê, ou via calúnia, depreciando a pessoa ou o trabalho musical da pessoa com intenção de tomar o lugar dela. Isso também faz parte da política. E gostaria de escrever sobre este tema aqui.

 

Numa cena saudável, raríssima de ver, este tipo de situação é muito fácil de se resolver. Primeiro identifica-se o cidadão usuário destas técnicas mercadológicas desleais, depois a comunidade musical, comunidade essa que inclui os proprietários de bares e estabelecimentos de música ao vivo em geral, boicotam o indivíduo fazendo com que ele assim procure uma outra cena ou desista da atividade.

 

Sou daqui. Uberlândia, assim como a maioria absoluta das cidades brasileiras, e arrisco afirmar que isso ocorre fora do país com uma certa freqüência também, não possui algo que podemos chamar de “cena saudável”. Especialmente neste período de crises institucionais, econômicas, morais e culturais. Pensei em como poderia ajudar os colegas e amigos da cena local em relação a essa questão. Quero citar algumas histórias que talvez possam ajudar os mais novos a entender a dinâmica desta atividade. Estou prestes a completar 30 anos exercendo a profissão de músico e já vi inúmeras histórias acontecendo que envolvem este problema.

 

Vou tentar citar só as mais relevantes. Bom, a primeira trata de um artista que acompanhei há muitos anos. Ele havia me contratado para acompanha-lo em shows e remunerava até os meus ensaios. Eu não tinha a menor ideia do que se passava nos bastidores, apenas recebia meu cachê e tocava quando era chamado. Um dia o artista simplesmente parou tudo. Quando fui pesquisar o motivo desta interrupção nas atividades, constatei que seus pais haviam entrado em uma situação econômica difícil e que todos os shows até então tinham ocorrido via pagamento para as casas.

 

Resumindo, o artista não havia sido convidado por nenhuma das casas de shows em que tocamos, pelo contrário, os pais do artista estavam procurando casas de shows e pagando a elas para que seu filho tocasse. Os cachês dos músicos também eram pagos pelos pais do vocalista. Isso foi uma grande surpresa pra mim, mas ao mesmo tempo explicou várias coisas que até então não tinham uma explicação lógica. Esse tipo de coisa acontece com muito mais freqüência do que todos imaginam.

 

Quando se é novo na profissão é bem comum de acontecer, às vezes sem os pais ou sem dinheiro. Um vocalista/músico novo fica muito deslumbrado com a possibilidade de conseguir sobreviver dignamente apenas com música. Com o tempo, esse deslumbramento vai passando quando ele percebe que isso é uma vocação e que a remuneração nunca será a motivação central do profissional da música. O aprimoramento e o processo de se reinventar e evoluir sempre é muito mais importante do que o dinheiro que um músico possa vir a ganhar em sua carreira. Isso só é perceptível com o passar dos anos. E nossa cultura, infelizmente, possui uma tendência de superestimar a juventude ,se comovendo com a energia dos adolescentes e menosprezando a experiência dos mais velhos. Isso acontece com mais clareza nas coisas ligadas ao mundo da moda. Tudo na moda é efêmero. Essa desvalorização dos músicos está ligada também a política. Uma sociedade que tem tempo ( dinheiro ) para apreciar uma boa música ou qualquer manifestação de cultura e arte, está em equilíbrio ou em harmonia.

 

Quando existe uma crise econômica ou moral, institucional, existe um desequilíbrio ou desarmonia. Então aí, as pessoas em via de regra ficam sem (tempo) dinheiro para investir nestes bens ligados ao desenvolvimento intelectual/espiritual/contemplativo, e tantos outros atributos que a arte pode receber. A prioridade passa a ser o pagamento de impostos e a manutenção básica do sistema como o pagamento de água, luz, telefone, internet, aluguel ou prestações. Então a probabilidade dos jovens, ou de qualquer músico perder o controle e o senso de ética com os coleguinhas fica bem maior quando a política não vai bem.

 

Porém, eu quero falar sobre uma outra realidade que pude ver quando fui pra gringa e fiquei dois anos trabalhando como músico, professor de música e aberto a qualquer outra atividade financeira. Essa outra visão onde existe estabilidade econômica, me fez observar e admirar músicos que tinham paralelamente atividades diversas e se impunham uma regra de somente tocar músicas autorais. Claro que essa realidade é totalmente incompatível com a brasileira, mas tive oportunidade de ver isso e sem querer pagar pau, mas já pagando, é uma outra visão bem menos superficial. Às vezes me lembro que neste cenário, o mais importante era a autenticidade, o genuíno, o inédito, a mágica de escutar pela primeira vez uma música e a sensação de que talvez você nunca mais tenha a oportunidade de escuta-la de novo. Isso acontecia o tempo todo. Aqui, claro que temos cenas diferentes.

 

A do jazz é muito autêntica e parecida com essa cena que acabo de descrever, a do Blues, que mesmo suspeito pra falar sobre, posso afirmar que possui um engajamento na tentativa de escapar do “Mustang Sally" nosso de cada dia. A do Samba é toda original. Apesar de ser mainstream e se submeter às regras do mercado, continua sendo nossa música. A do sertanejo universitário, que é mutante e mainstream, agrega os estilos que puder, desde a volta às raízes, passando pelo vanerão - música gaúcha apelidado de “Arrocha”- até a célula rítmica do Maculelê- apelidado de Funk Carioca -, para não sair do espectro da cultura de massa. Temos a cena autoral da MPB que tem muita gente nova e boa, todos ou quase todos tentando alcançar o mainstream. Temos o Rock, que é essencialmente Cover, exceto por meia dúzia de bandas que insistem em disputar lugar no mainstream. A cena do Hip-Hop, free style, Black Music, Samba Rock e outras tantas, todas disputando o gosto popular.

 

E onde esses caras que furam olho dos colegas estão? Técnica da CIA … Follow the money... só que do avesso. Onde estiverem pagando menos, lá estarão os fura olhos. Não boicotem os músicos fura olhos.

 

Boicotem as casas que pagam menos. E escutem Muddy Waters duas vezes ao dia... claro.

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