COLUNAS/DoBluesÀPolítica: Não amarre seu cachorro com linguiça

December 22, 2017

Oi. 

Tem alguém aí ? 

Esse é o meu segundo artigo para o Cena Cerrado . 

Quando fui convidado a escrever esta coluna, agradeci muito pelo convite e disse que era muito importante pra mim. 

Hoje quero falar um pouco sobre o porquê disso. É uma longa história. 

Vou tentar fazer isso ter algum sentido. 

Durante os primeiros anos em que exerci minha profissão, lidei de forma indevida em vários aspectos  dela em função da minha idade e inexperiência . 

Acho que a primeira epifania ocorreu depois de 10 anos de profissão. 

Durante os primeiros 10 anos, sem saber de meu pequeno potencial como vocalista, preferia apenas tocar guitarra e nunca havia me arriscado a cantar nada. 

Em decorrência  desta acomodação, tinha uma visão superficial sobre o mundo dos vocalistas. 

 

Quando, por necessidade financeira fui obrigado a explorar meu potencial como vocalista, me surpreendi com a quantidade de pensamentos errôneos sobre o universo do instrumento musical que possuímos de fábrica, a voz, e a partir de então, comecei a respeitar mais os vocalistas e suas manias por ar condicionados desligados, mudanças de tonalidades de ultima hora e mais uma gama de aspetos, desde uma  possível diferença no cachê, até a impossibilidade dos músicos especialistas em canto de se expressarem politicamente nos palcos. A responsabilidade social de alguém com o microfone na mão, o peso da posição “Band Líder"  ou o oposto, a irresponsabilidade de um vocalista quando se posiciona erroneamente e arrisca o trabalho de todos os músicos. 

 

Ali aprendi o que é e porque devemos experimentar exercer todas as atividades possíveis para valorizarmos o trabalho de cada um. Venho desde então, sempre que possível, saindo de minha zona de conforto e experimentando novas linguagens e atividades. Por isso essa coluna é tão importante pra mim. Aqui estou me colocando no lugar de tantos jornalistas que li em colunas e experimentando a sensação de estar do outro lado do balcão. 

 

Isso musicalmente é uma grande escola, pelo menos para mim. Alguns exemplos de que tentar tocar ou exercer outra função diferente daquela que vc se especializou podem ser feitas sem muitos trâmites burocráticos. 

 

Você toca guitarra? Está com problemas com algum instrumentista de sua banda? 

Se o problema  for com o baixista, peça um baixo emprestado a alguém e leve para casa. Tente tocar uma música no baixo, escolha uma que tenha um baixo um pouco mais elaborado ou que tenha um conceito simples porém sofisticado. Se for com o Baterista , corra atrás de um instrumento percussivo e tente tocar um ritmo qualquer por 5 minutos sem sair do metrônomo. Se for com o  tecladista, sente em um piano e tente tocar algo. 

Se for com o Vocalista, tente cantar algo. O mesmo serve se você é um vocalista e estiver com problemas com o guitarrista. Aprenda um ritmo no violão ou no teclado, estude o campo harmônico . 

 

A banda da qual vc faz parte tocará melhor se este processo de empatia ocorrer . 

Depois deste exercício, se os resultados forem positivos, estenda o mesmo principio para os demais integrantes de seu ciclo de trabalho: o produtor, o técnico de som, o empresário, o dono do bar, o garçom, o responsável pela limpeza, o segurança, o policial que faz a ronda, o flanelinha que cuida dos carros. Tente se colocar ou entender as atividades destes outros componentes da realidade em que vive . 

 

Em Pernambuco, tive a oportunidade de trabalhar como fotógrafo em um programa de mitigação de danos ambientais e trabalhei junto a comunidades indígenas, pescadores e marisqueiras. Fui confundido com agente governamental em campo. Senti a pressão das comunidades afetadas por assoreamentos de rios e atividades diversas. Conheço hoje a triste sensação de fazer parte da legião especialista em enxugar gelo. E consigo assim evitar pensamentos de perversão e violência contra o sistema. Mas tive que fazer parte dele pra entender que as pessoas não tem o domínio sobre o que estão fazendo. 

 

O sistema é maior do que seus agentes. Quanto mais você se afasta do objeto, melhor vc enxerga. Pense no sistema como algo que está na ponta de seu nariz, não tente combater algo tão próximo a você mesmo. Entende-lo é mais eficiente do que combate-lo. 

 

Desde minha primeira coluna aqui , já aceitei ser DJ pela primeira vez - e me diverti muito! Topei acompanhar Julia Ribas em um empreendimento no qual fui sócio na produção, organização e divulgação além de músico e pude prestar serviço ao Festival Ipê, tocando um repertório de bossa nova e jazz fusion ao lado do gênio Bocato . 

 

Estou estudando edição de vídeos e arte gráfica. Ou seja, temos que praticar todos os tipos de atividades diferentes possíveis para podermos convier respeitando o trabalho de cada um. Pra não falar que não falei sobre Blues e Política, pense nisso:

 

Se você pudesse aumentar o seu próprio salário, você aumentaria? 

 

 

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