#COLUNAS / FICHA TÉCNICA: Nunca foi apenas um jogo

August 1, 2017

Tarde de domingo. O “Arte na Praça” voltou na Sérgio Pacheco, em Uberlândia, mas eram tantos araguarinos que se perdiam de vista na miúda multidão. Toda gente entrelaçada para o show da “Porcas Borboletas”, que lançava seu quarto disco em 18 anos. Os primeiros acordes ressoavam do palco quando veio a notícia. O Corinthians abriu o placar contra o Flamengo. Celular, internet, dados móveis, roteador, Google, futebol ao vivo, tempo real, SMS. Tudo que eu tentei falhou.

 

Com a trilha do álbum “Momento Íntimo” e algumas relíquias de um passado não tão distante, perambulei pela praça em busca de qualquer sinal que me ligasse à batalha que se passava sob os olhos de 45 mil em Itaquera. Bárbara e eu até conversamos com o vocalista Enzo e o tecladista “Ricardim” antes de subirem ao palco. Ela é fã de carteirinha desde “Um Carinho Com os Dentes”, de 2005. Comigo, a descoberta veio tempos depois. De longe, o som era um convite. Eis que enxergo uma TV de 12 polegadas improvisada num posto de combustíveis.

 

A ideia não poderia ser outra senão do gênio torcedor. Ninguém corre esse risco por um Show dos Famosos no Domingão do Faustão, a Hora do Faro ou Esquadrão Classe A na Sessão Livre da Band, com todo respeito ao Coronel Hannibal Smith. Nem a miopia e o astigmatismo ofuscaram o verde estampado naquele cubo eletrônico colocado sobre uma cadeira de plástico. Estavam assistindo a Corinthians e Flamengo.

 

Sentados numa cadeira longarina feito sala de espera, estavam o flamenguista “Preto”, como pediu para chamá-lo, e Lúcio, torcedor do Fluminense que, curiosamente, envergava uma jaqueta do Corinthians. “Tem que se proteger do frio, né?”, brincou. Ambos são frentistas, mas bem que poderiam ocupar uma cabine de transmissão. “O Flamengo tem que atacar pela esquerda, é jogo de velocidade”, disse um. “O Corinthians vai jogar por uma bola”, profetizou outro.

 

Quando o zagueiro Réver, do Flamengo, projetou seus 1,92m para um voleio de canhota livre na área rival, nem o tricolor escapou da euforia. A castigada cadeira longarina cantou de geral do Maracanã. Homens, mulheres, crianças e cachorros se aproximaram do motim descabido entre um abastecimento e outro. Aos 25 do segundo tempo, o empate estava sentenciado, com gosto de “Derrota Transcendental”, do novo disco do Porcas Borboletas. Depois, todos voltaram para o show. Nunca foi apenas um jogo.

 

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