#ENTREVISTA Entre Nós: Laboratório 96 - A casa da cena independente em Uberaba

July 18, 2017

Idealizadoras do espaço falam sobre desafios de viver da música autoral na região

     

A imagem de Dom Pedro I, às margens do Ipiranga em 1822, reflete o divisor de águas de um desabafo, mas também pode ter outra interpretação além do apelo histórico. Se olharmos sob a ótica de Pedro Américo, mensuramos o valor de um artista, principalmente para viver com independência. Para criar, compor, produzir e mostrar. Quem enxergou esse ciclo foram duas mulheres. Letícia Rezende tem 29 anos. Bruna Buzollo, 30. A arte sempre lhes seguiu, por Belo Horizonte, São Paulo, Uberlândia e, há cinco anos, Uberaba. Com uma luta incansável por contribuir pelos artistas, encontraram na rua Ituiutaba, 96, o endereço para fazer a roda girar. Há um ano e três meses, a casa da arte independente da cidade também responde por Laboratório 96. Conversamos com as idealizadoras para saber mais sobre esse lugar que entrelaça diferentes pessoas e mantém viva a cultura local.   

 

Manual de sobrevivência - Como viver de arte independente em Uberaba?

(Letícia) - "Trabalhamos em projetos que são referência na cena independente nacional, como Casa do Mancha, Mundo Pensante, Fora do Eixo, Puxadinho da Praça e, depois de São Paulo, queríamos um pouco mais de qualidade de vida, sem parar de fazer aquilo que fazíamos e sempre gostamos. Foi muito importante poder concretizar essa ideia e ver que se fizermos de maneira organizada, dá certo. É um desafio diário, trabalhar para fazer a galera consumir um produto que ninguém conhece, trazer as pessoas e as fazerem interessadas". 

 

Música autoral > Cover

(Bruna) - "Aqui, se é música ao vivo, tem que ser autoral. Sabemos que poderia ser muito mais fácil e a renda muito maior com um bar lotado com shows o fim de semana inteiro, mas não é essa a proposta. Vivemos uma missão. É algo que queremos para o bem da cidade e, se tivermos que abrir espaço para banda cover, preferimos fechar. É uma lição diária de viver e felizmente conseguimos ver o crescimento das bandas. Poder ver o seu cliente com uma playlist daqueles que ele viu tocar no Laboratório é muito bom".

 

Relação artista/casa de shows

(Letícia) - "Sempre gostamos de música e de tocar também e aqui podemos ensaiar, gravar nossos sons e produzir coisas novas, o que facilita bastante. Brinco que toda banda devia entender o que é ser dono de um espaço para shows, além de ser banda. Se a gente não entende o outro lado, não conseguimos dialogar".

 

Lugar de artista independente é em shows de outros artistas

(Letícia) - "Fizemos muitos amigos nesse ano de Laboratório e isso é muito bom. O problema é que muitos compositores daqui não frequentam o espaço e perdem essa oportunidade, de conhecer outros artistas e fazer esse networking. Precisamos somar e isso passa por ver os shows de cada um. Se você não vai ver uma apresentação de alguém, por que espera que as pessoas vão à sua? Se quer fazer parte da cena independente, tem que viver nela, acompanhar de perto esse ciclo". 

 

           Cao Laru (França/México) no palco do Laboratório 96. / Foto por Marcos Paulo

 

Mais amor, por favor

(Letícia) - "Pensamos cada detalhe para que todos possam crescer juntos, principalmente nas atitudes. Tem gente de vários estilos e todos são tratados iguais, até por isso nem gostamos dessa ideia de uniforme. Eu e a Bruna somos casadas e simplesmente por causa dessa relação, muita gente deixa de ir ao Laboratório. Já ouvi sobre pessoas que não frequentam o local por acharem que é um bar gay. Mesmo que fosse, é um lugar de seres humanos. É triste e, por isso, entrar aqui ainda é um choque de realidade, pois não é aquilo que estavam pensando. É como se entrassem num mundo paralelo. O bom é que a maioria dessas pessoas se adapta e acaba curtindo e deixando o preconceito de lado".

 

Como avaliam o cenário atual?

(Bruna) - "Em um ano de casa, acredito que a cena deu uma crescida em toda região. Tivemos o Stereo Lab Festival, o projeto Lab na Praça, onde pudemos ocupar de verdade o espaço público com bandas independentes e feirinhas, e se pudéssemos faríamos isso cada vez mais. Tem gente que está empolgada de fazer acontecer. Conhecemos o Arthur do Cena Cerrado, o Rock das Aranhas, a galera da Cooperativa Mexe o Doce, que estão sempre envolvidos de alguma forma. O bom é que a gente se ajuda muito e isso é ótimo para todos". 

 

Conheça e siga o Laboratório 96, clicando aqui!

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